A HISTÓRIA DOS CAMINHEIROS

Uma história de fé em Deus e na espiritualidade
Fachada principal da sede definitiva do Centro Espírita Caminheiros de Santo Antônio de Pádua, construída no Setor O, de Ceilândia, Distrito Federal. [Foto de Ronaldo de Oliveira]

A história dos Caminheiros de Santo Antônio de Pádua se confunde com a da sua fundadora, Antônia Lins, nascida em Alagoas, em 13 de novembro de 1925.
Centro Espírita
Caminheiros da Verdade
 — Em 1947, ela mudou-se para o Rio de Janeiro, na busca de dias melhores, quando começou a trabalhar como costureira. Por volta de 1955, acometida por doença que desfigurava o seu rosto, sem que os médicos a curassem, foi levada por uma colega de trabalho para o Centro Espírita Caminheiros da Verdade, onde obteve a cura quase que imediata. Naquela oportunidade, um compromisso foi selado entre ela e a espiritualidade: cumpriria a sua missão mediúnica. E, assim, o fez. Foram 14 anos de dedicação. O centro, fundado em 4 de março de 1932 — portanto, há 79 anos — por João Carneiro de Almeida, ainda hoje funciona na Rua Comendador João Carneiro de Almeida, nº 133, em Engenho Dentro, zona norte do Rio de Janeiro.
  — Em março de 1970, dona Antônia mudou-se para Brasília, por força da transferência de sua filha, Creusa, na época muito jovem para morar sozinha numa terra tão distante. A partir daí, a espiritualidade começou a agir para o surgimento do Centro Espírita Caminheiros de Santo Antônio de Pádua.
Antônia Lins
  — Estabelecida em Brasília, dona Antônia e a sua filha percorreram vários terreiros de Umbanda em busca de encontrar algum com o qual se identificasse e, assim, pudessem dar continuidade ao desenvolvimento espiritual. Não encontraram nenhuma casa que tivesse qualquer semelhança com os Caminheiros da Verdade.

O que fazer?
 — Elas jamais imaginaram que o caminho que se abria era o de uma trajetória que colocaria à prova a fé e exigiria persistência e obstinação de ambas.
Em meados de 1970 — não há como precisar o mês, o dia, a hora —,  bateu à porta da casa de dona Antônia um homem simples chamado Raimundo, que exercia atividades de faxineiro de um dos prédios próximo à sua residência. Ele sentia-se mal e desmaiava no trabalho. Até então, ninguém havia descoberto a causa da “doença”, e seu emprego estava ameaçado.
 — Diante do drama daquele homem simples, que bateu à sua porta, não se sabe bem porquê,  dona Antônia tratou de atendê-lo por meio do seu guia, Ogum da Floresta. Seu Raimundo era um médium. O fenômeno que ocorria com ele era típico daqueles que voluntária ou involuntariamente se recusam a aceitar a missão espiritual que têm a cumprir. Assim, cada desmaio não passava de uma aproximação espiritual. A “cura” exigia tratamento espiritual e desenvolvimento mediúnico.
Com a melhora do seu Raimundo, muitas outras pessoas chegaram até dona Antônia em busca de assistência espiritual. Entre elas, Jurema, mulher de Manoel Antão, hoje, dirigente da Fonte das Rosas Brancas. Mário e Terezinha e muitos outros. Seu Raimundo, depois de Creusa, foi o primeiro médium dos Caminheiros de Santo Antônio de Pádua.
No círculo, seu Raimundo, o pivô enviado pela
Espiritualidade para dar origem aos Caminheiros
  
O que a Espiritualidade Maior queria dela?
As pessoas eram atendidas em um pequeno quarto que servia de local, onde dona Antônia trabalhava como costureira e estava seu oratório. O espaço não oferecia a menor condição para os trabalhos espirituais, mas os desafios não paravam de bater à porta da casa dela diariamente.
Era imperativo encontrar um local adequado, mesmo porque a doutrina aprendida nos Caminheiros da Verdade deixava claro que a residência não é um espaço apropriado para a realização de trabalhos espirituais, exceto em circunstâncias muito especiais.
Caboclo Guaraná
As dúvidas eram muitas e a alternativa foi voltar ao Rio de Janeiro e buscar orientação com seu João Carneiro de Almeida, presidente e líder religioso dos Caminheiros da Verdade.Desse encontro, dona Antônia retornou a Brasília autorizada a abrir o Centro Espírita Caminheiros de Santo Antônio de Pádua e dar continuidade a sua missão espiritual.
Uma longa estrada se colocava diante dela. Não seria uma trajetória fácil. Como primeiro companheiro e fiel escudeiro, ela tinha uma réplica do quadro do Caboclo Guaraná, pictografado (pintado) por um médium vidente dos Caminheiros da Verdade, que lhe foi dada por seu João Carneiro de Almeida.
A segunda pergunta estava respondida: dona Antônia
deveria ser uma líder espiritual umbandista
na nova capital da República
Chegar a essa condição estava nas mãos de Oxalá e da Espiritualidade. Providências materiais tornaram-se indispensáveis. Entre elas, decidir onde o centro funcionaria.
O casal Mario e Terezinha, grato pela graça que havia alcançado, abriu as portas de seu apartamento na SQN 407 para ali instalar o primeiro terreiro dos Caminheiros de Santo Antônio de Pádua. As sessões ocorriam aos sábados e às quartas-feiras, respectivamente, desenvolvimento mediúnico e consultas.
 — Embora os trabalhos transcorressem normalmente, com um número cada vez maior de pessoas, que ali buscavam os mais diferentes lenitivos para seus problemas, era preciso conseguir um local próprio para construir a casa dos Caminheiros de Santo Antônio.
Primeiro congá dos Caminheiros de Santo Antônio
 — Assim, começava uma grande batalha: formalizar a documentação do centro, para que ele nascesse juridicamente e dentro da legalidade; conquistar colaboradores, para que eles ajudassem nas despesas, elaborar estatutos e muitos outros documentos, quantos fossem necessários, indispensáveis ao funcionamento dos Caminheiros de Santo Antônio de Pádua, como centro espírita. Todo esse trabalho se estendeu por meses.

Finalmente, em 10 de agosto de 1971, o Centro Espírita Caminheiros de Santo Antônio de Pádua estava formalmente fundado, com o extrato do seu primeiro estatuto de fundação publicado no Diário Oficial da União, sob o registro nº 333, e presidido por Antônia Lins

A data marcava também o início de mais uma árdua luta: conseguir um lote para edificar o centro. Foram anos de intenso trabalho para conseguir os recursos financeiros e vencer a burocracia dos órgãos governamentais. Naquela época, os Caminheiros já enfrentavam o que hoje chamamos de intolerância religiosa e o preconceito contra a Umbanda.

Segunda mudança
 — Passados muitos meses, Mário, funcionário de carreira do Itamaray, informou que estava sendo deslocado para Nairóbi, na África. Diante disso, não mais poderia continuar com o centro na sua casa. Tinha início a saga do centro, em busca de um local para a continuidade dos trabalhos. A expressão “caminheiros” deixou de ser apenas o nome da casa e se tornou uma condição.

Darcy
Darcy, incorporado com o caboclo
Sete Cachoeiras, oficializa uma
cerimônia de batizado
 — A partir dessa mudança, o grupo dirigente da casa alugou uma sala comercial na 705 Norte. Era um espaço acanhado, mas cheio de boas energias. Nessa sede provisória, os Caminheiros receberam o irmão Darcy de Aquino Ribeiro cuja trajetória merece um capítulo à parte pelo seu exemplo de dedicação, fé e compromisso com os mais profundos ensinamentos da Umbanda e da doutrina espírita. Darcy morreu em 1988, em decorrência de um infarto fulminante.
Após um ano e findo o contrato de locação, era preciso achar um novo espaço para a continuidade dos trabalhos. 
  
Terceira mudança
 — Os Caminheiros mudaram para a 408 Norte, onde ocuparam uma sala na sobreloja. Apesar de ser um espaço provisório, os Caminheiros tiveram um período de crescimento. Aumentou o número de médiuns, de colaboradores e, em todos os dias de funcionamento, a casa estava sempre lotada.
O ritmo dos trabalhos mudou muito. Antes, funcionando apenas às quartas e aos sábados, os Caminheiros passaram a abrir as portas também às sextas-feiras, com a realização de uma sessão especial,.Nesse período, muitos médiuns que tiveram papel importante na trajetória dos Caminheiros chegaram à casa, entre eles irmão José Vicente (morto nos anos 1980, Marli e o marido, Jorge Adão (falecido), e vários outro irmãos e irmãs.


Dona Antônia conversa com médiuns encarregadas da decoração
para mais uma festa nos Caminheiro. Local: sede provisória na 408 Norte
Zé Vicente
Zé Vicente e dona Antônia em
noite de festa de Povo D'Água
 — Entre os muitos que ingressaram nos Caminheiros, sem desmerecer nenhum deles, mas por uma questão de justiça, vale uma referência especial ao irmão José Vicente. Exemplo de fé e dedicação, ele atuou na Fonte das Rosas Brancas, foi doutrinador e quando o centro conseguiu adquirir sua sede definitiva no Setor O de Ceilândia, ele dedicou-se de corpo e alma à edificação do primeiro espaço — um barraco de placas pré-moldadas — que serviu para o início dos trabalhos espirituais da casa.
Ele, ao lado de Creusa, filha de dona Antônia e, atualmente, presidente dos Caminheiros, foram incansáveis na condução da obra definitiva da sede própria dos Caminheiros, uma parte da história que ocorreu alguns anos depois.
 A Fonte das Rosas Brancas
 — Era um tempo de muita energia. A maioria era jovem, cheia de vigor e dedicada ao trabalho espiritual dos Caminheiros. A força da juventude ajudava muito e não havia cansaço. Qualquer dia, qualquer hora estavam dispostos a estender as mãos a quem necessitava.
Entre os muitos que chegaram, os Caminheiros receberam o seu Amaral, um oficial da Marinha destacado para servir em Brasília. Ele era ogã nos Caminheiros da Verdade e sua mulher, Cleia, médium da Fonte de Siloé. [De acordo com o Evangelho, Siloé significa um poço em Jerusalém onde o cego de nascença se banhou e recebeu o milagre da visão].
O desejo de dona Antônia de expandir os trabalhos espirituais da casa e oferecer aos que a procuravam alternativas de tratamento foi realizado.  Cléia foi designada para abrir a Fonte das Rosas Brancas, sessão de cura, de reenergização e de reequilíbrio do corpo material, no mesmo formato da Fonte de Siloé, dos Caminheiros da Verdade.
O nome “Fonte das Rosas Brancas” deveu-se ao fato de dona Antônia ser aparelho das mensageiras Maria Elizabete da Flores e Maria de Lourdes dos Astros. Esses espíritos incorporavam em dona Antônia com muita frequência para a realização das preces na abertura dos trabalhos espirituais da casa. 
 — Cléia comandou os trabalhos da Fonte, que passaram a ocorrer às quintas-feiras, como acontece atualmente. Dona Antônia se fazia presente e passou a trabalhar na Fonte, incorporando ora Maria Elizabete das Flores, ora Maria de Lourdes dos Astros.
Não demorou muito, seu Amaral foi chamado para retornar ao Rio de Janeiro e aos Caminheiros da Verdade. Com a saída do casal Amaral e Cleia, dona Antônia assumiu os trabalhos da Fonte das Rosas Brancas. Juntaram-se a ela Darcy, José Vicente e outros que tinham afinidade com os trabalhos de cura. As graças alcançadas foram muitas, reveladas em depoimentos emocionantes de pessoas que não conseguiram na medicina tradicional alívio para suas dores.
Hoje, a Fonte das Rosas Brancas mantém-se como referência e é um dos importantes trabalhos espirituais oferecidos pelos Caminheiros de Santo Antônio de Pádua, sob a direção do irmão Manoel Antão.
 — A essa altura, em sua sede provisória na 408 Norte, os Caminheiros funcionavam regularmente quatro dias por semana: quarta-feira, com consultas; quinta-feira, com a Fonte das Rosas Brancas; sexta-feira, com sessão de gala; e domingo, dia de desenvolvimento mediúnico. Nos demais dias da semana, na pequena sala, os trabalhos não paravam. Aos adultos, tanto do corpo mediúnico quanto da assistência, eram ministradas aulas de alfabetização.
As aulas acabavam se tornando um pretexto. As luzes acesas revelavam que havia alguém na sala. Assim era raro o dia em que não apareciam pessoas pedindo ajuda espiritual. Dona Antônia jamais negou atendimento a quem quer fosse. Quando as pessoas chegavam, ela parava tudo, fazia uma prece e seu Ogum da Floresta incorporava para atender quem batia à porta em busca de caridade. Os médiuns que estavam na aula de alfabetização eram chamados para os trabalhos de caridade.
Casamento
 — Em junho de 1973, Ogum da Floresta realizou o primeiro casamento dos Caminheiros de Santo Antônio de Pádua. Os médiuns Sérgio Dias Curvelo e Tânia Alves Teixeira casaram-se. A cerimônia foi simples, mas envolveu todos com grande emoção. Foi nessa cerimônia que, pela primeira vez, seu Ogum da Floresta falou sobre a Ilha de dom Afonso, onde havia enormes jardins de rosas brancas. Essa característica que deu nome aos trabalhos de cura: a Fonte das Rosas Branca.
Projeto da futura sede
 — Com relativa freqüência, Ogum da Floresta, ao fim das sessões fazia pequenas preleções para os médiuns que ficavam até o encerramento dos trabalhos. Certo dia, ele disse a um pequeno grupo que era chegado o momento de conseguir alguém que pudesse desenhar como deveria ser a futura sede definitiva dos Caminheiros de Santo Antônio de Pádua. Embora essa possibilidade parecesse muito distante, tratou-se de atender a orientação.
Entre os muitos contatos, encontramos a arquiteta Sílvia Encarnação Alves Velho. Sensível ao apelo e, porque não dizer, ao desafio que lhe colocavam — criar o projeto de um centro de umbanda, sob a orientação de um guia espiritual —, ela aceitou o pedido.
Ela foi aos Caminheiros e seu Ogum da Floresta detalhou como desejava que fosse a casa de Santo Antônio de Pádua. Poucos dias depois, os desenhos foram levados ao conhecimento de Ogum da Floresta que, após alguns retoques, o aceitou como concluído.
A dura mensagem
 — Algum tempo depois da conclusão do projeto da futura sede dos Caminheiros ser concluído, seu Ogum da Floresta, em mais uma das conversas com um pequeno grupo de médiuns, passou uma mensagem que deixou a todos preocupados. Ele avisou que tão logo a cumeeira da casa definitiva dos Caminheiros estivesse pronta, a sua missão no plano terreno estaria encerrada. Disse que ele e seu aparelho Antônia Lins partiriam para a espiritualidade e que todos deveriam se empenhar para a continuidade da obra que havia iniciado. 
Novamente sem sede
 — Por volta de 1976, depois de um bom tempo na 408 Norte, não foi possível renovar o contrato com a imobiliária Emo. Os caminheiros não tinham para onde ir. Diante da dificuldade, Marli e Jorge ofereceram a casa deles, no Guará 2, para que os trabalhos não fossem interrompidos. Assim, o centro mais uma vez caminhou para outra sede provisória. Marli ingressou nos Caminheiros, na 408 Norte. O marido, Jorge, foi companheiro, amigo, devotado e sempre pronto para ajudar em todos os momentos. Ao lado de Marli, ele sempre teve uma atuação dinâmica em todos os eventos promovidos pelo centro a fim de angariar fundos para a futura sede própria.
Passados vários meses na casa de Marli e Jorge, a direção da Casa decidiu que a melhor alternativa seria alugar um imóvel. Prevaleceu entendimento de que residência familiar não era, como não é até hoje, um local adequado aos trabalhos espirituais. Por sorte, o centro conseguiu alugar um imóvel na QE 15, conjunto G. Lá, os Caminheiros funcionaram por pouco quase dois anos. 
O drama
 — Em 1977, véspera de Natal, um acidente de trânsito deixa dona Antônia, e a filha, Creusa, bastante feridas. Entre as muitas adversidades enfrentadas pela Casa, aquela era incomparável. O corpo mediúnico da casa ficou desnorteado. Foram 21 dias de muita angústia e sofrimento, enquanto dona Antônia permaneceu na Unidade de Terapia Intensiva. Os trabalhos espirituais foram intensos. Apelamos a todos os Orixás pela vida de dona Antônia. Ela superou todas as dificuldades e menos de um ano depois estava de volta aos trabalhos dos Caminheiros. Embora ainda convalescendo e sem poder exercer plenamente suas atividades, a sua volta foi um alívio para todos. 
Homenagem a Iemanjá
 — O momento mais dramático, no entanto, levou os Caminheiros a adotarem a prática de reverenciar Iemanjá, todos os anos às margens do Lago Paranoá. Assim, a partir de 31 de dezembro de 1977, todos os anos, um grupo de médiuns leva às águas do Lago Paranoá um barco com flores e oferendas à Iemanjá. Nos primeiros anos, logo depois de totalmente recuperada, os trabalhos eram dirigidos por dona Antônia. Hoje, eles são comandados pela médium Arline Almeida cujo mentor espiritual é o Caboclo Rompe Mato.


Outros compromissos
 — Ainda durante o período de sua convalescência, dona Antônia, em agradecimento pela recuperação da saúde, assumiu outros compromissos com a cúpula espiritual dos Caminheiros de Santo Antônio. Assim, foi compromissado que, no último domingo de cada mês, haveria a Gira de Segurança para os guardiões da casa. Nesse mesmo dia, A sessão de caridade seria dirigida pelos caboclos da Linha de Xangô. O mesmo princípio valeria para o primeiro domingo de cada mês, quando o atendimento ao público seria feito pelos Pretos Velhos.
O terreno definitivo
 — Enquanto os Caminheiros estavam na casa alugada do Guará 2, foram realizados vários eventos para arrecadar recursos à futura obra dos Caminheiros. Mas nada rendia dinheiro suficiente para a compra do terreno. Até que a irmã Rosane Andrade Garcia sugeriu a ideia de rifar o seu carro usado, que, naquele momento, ela doava à instituição. Oxalá e os orixás abençoaram a proposta. Os Caminheiros conseguiram vender uma quantidade boa de rifa, suficiente para dar a entrada na compra do lote oferecido pela Terracap. No dia do sorteio pela Loteria Federal, a dezena sorteada (61 ou 62, ninguém guardou esse bilhtete) não tinha sido vendida. O carro ficou com a doadora do automóvel e todo o dinheiro arrecadado foi para o caixa do Centro.
Em seguida, foi reiniciado o processo para a aquisição do lote. Embora houvesse áreas disponíveis em diferentes pontos do Distrito Federal, a Terracap se dispôs somente a vender o Lote A, da Área Especial 1/3, do Setor O de Ceilândia Norte, atual endereço dos Caminheiros. Apesar da distância do Plano Piloto, onde morava a maioria dos médiuns e frequentadores e da infraestrutura precária, foi grande a alegria de sabermos que ali o centro edificaria sua sede própria. Depois de tanto caminhar, os Caminheiros finalmente tinham conquistado o seu espaço.
As perdas esperadas aconteceram. Muitos médiuns deixaram a casa. Os motivos foram os mais variados. Porém o mais comum era o da distância, seja pela falta de condução própria ou pela dificuldade de transporte público até ao Setor O. Além disso, na época, Ceilândia era tida como uma cidade muito violenta. O medo da criminalidade despontava como outra boa justificativa para não seguir os Caminheiros. Entre os médiuns que não acompanharam os Caminheiros para Ceilândia estava seu Raimundo, aquele do início dessa história e que foi, podemos assim dizer, o pivô para o surgimento dos Caminheiros.
O pequeno grupo que ficou não se intimidou diante dos obstáculos que a mudança impunha. Arregaçou as mangas e apostou todas as suas energias na construção definitiva da casa dos Caminheiros. A sede provisória em terreno próprio foi construída de placas de pré-moldado, no canto direito do muro (no sentido de quem entra na casa), erguido com o mesmo material. O espaço era pequeno. Como apoio, havia uma pequena copa, um banheiro e um tanque. Tudo era muito frágil, exceto a fé de que um dia os caminheiros teriam a casa por tantos anos desejada e erguida de acordo com o que o seu Ogum da Floresta havia projetado.
Os eventos para arrecadar fundo eram frequentes. Festival de chope, de sorvete, churrasco, feijoada, almoços, rifas etc. O importante era não deixar faltar dinheiro para a obra, pois havia um fantasma denominado “pacto de retrovenda”, imposto pela Terracap, que exigia a conclusão da obra em 24 meses. Caso contrário, os Caminheiros perderiam o terreno e tudo que nele estava. Com muita ajuda da espiritualidade, dos irmãos que ingressaram nos Caminheiros em Ceilândia, como o casal Geni e Chiquinho — ela hoje vive nos Estados Unidos —, além dos frequentadores, a sede foi construída.
Quando boa parte da obra estava pronta, Creusa requereu à Terracap a suspensão o pacto de retrovenda e o Centro foi vitorioso. Exorcizada a retrovenda, a obra seguiu em ritmo acelerado, mas com tranquilidade. Ainda hoje, a cada ano, há sempre a preocupação de fazer pequenas obras para preservar a casa, melhorar as acomodações para médiuns e colaboradores.
Diferentemente do que ocorria na 408 Norte, em Ceilândia, o Caminheiros abriam suas portas apenas duas vezes por semana: às quartas-feiras e aos sábados. Além da distância, já não contava com o mesmo número de médiuns da sede provisória.
 
1987 — A perda
 — A obra estava praticamente concluída. Restava apenas colocar as telhas de amianto. Para a compra das telhas, estava marcado um almoço para o fim de agosto. Na mesma época, dona Antônia vinha tendo problemas de saúde. A situação se agravou e ela foi vencida por um câncer. Desencarnou em 21 de agosto. O almoço ocorreu, como ela havia programado, apesar do clima de consternação que ardia no coração de todos os caminheiros.
A cumeeira estava pronta. A mensagem de seu Ogum da Floresta, ainda na 408 Norte, fui cumprida. Uma enorme tristeza abateu-se sobre os caminheiros. A lembrança de dona Antônia é carregada de uma saudade imensa. Mas ela vive, e seu Ogum da Floresta é a energia que alimenta os Caminheiros de Santo Antônio de Pádua. Não fosse assim, pela vontade de Oxalá, não estaríamos hoje comemorando os 40 anos de fundação desta Casa, que se mantém íntegra na prática da Umbanda, e fiel ao exercício da caridade sem nada pedir em troca. 
Obra viva

 — A obra de Ogum da Floresta e Antônia Lins está viva e altiva. É alimentada pela energia de cada médium e principalmente pela alegria de cada um que chega em busca de ajuda e volta para agradecer, mesmo que silenciosamente, pela graça alcançada. São conquistas que revitalizam a fé e reforçam a crença de que ser um caminheiro, um umbandista não é apenas uma missão, mas é sobretudo uma oportunidade que traduz a benevolência de Deus com cada um de nós. Por mais que os caminheiros agradeçam a chance dada por Oxalá e pela Espiritualidade jamais poderão expressar a gratidão pela existência do Centro Espírita Caminheiros de Santo Antônio de Pádua, que significa a casa, a segurança, o espaço de fé, de recolhimento, de esperança e renovação das energias para o enfrentamento das adversidades.
Os Caminheiros agradecem a todos que fizeram parte desta história.
Brasília, 14 de agosto de 2011


Início da obra dos Caminheiros de Santo Antônio

Sede definitiva dos Caminheiros (2010)

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