Persiste a intolerância religiosa no Rio de Janeiro


Conhecido pela hospitalidade dos habitantes, o Rio vem se tornando praça de uma guerra silenciosa. As delegacias da cidade já registram mais de dois casos por mês de intolerância religiosa, um crime que pode levar a até cinco anos de prisão, mas, 20 anos depois de vigência da legislação, nunca houve sequer uma condenação. O problema ainda é tão obscuro que as próprias delegacias, por uma falha no sistema, só passaram a registrar o crime a partir de novembro.

Por receio ou falta de informação, muitos casos sequer são registrados. É o caso, por exemplo, do Grupo Espírita Seguidores da Verdade, na Pavuna, que fica ao lado da passarela da SuperVia e, por isso, torna-se alvo fácil de detratores. Mais de 10 janelas e telhas estão quebradas por conta de pedras arremessadas contra o centro. Numa das vezes, estilhaços do vidro espatifado acabaram ferindo um dos médiuns no meio do culto. A casa funciona desde 1975 e o problema se arrasta há cerca de 10 anos.

"Sem dúvida é uma atitude de pessoas incomodadas com a gente, mas nunca flagramos, e por isso não registramos queixa", conta Nancy Pedrosa, diretora de culto e presidente da casa. "Jogam pedra e dizem que é a casa do diabo, às vezes param e rezam, mas isso já não nos incomoda", afirmou.

O centro funciona ao lado de uma igreja batista, cujos fiéis, certa vez, também compraram briga. Jogaram óleo ungido na porta, mas Nancy conseguiu intermediar a situação simplesmente conversando com o pastor, que não compartilhava do ato de seus fiéis.

Um dos últimos casos aconteceu há cerca de três semanas em Santíssimo. Desde agosto, quando se mudou para o bairro, a Tenda Espírita Caboclo Flexeiro funciona no mesmo terreno onde moram duas famílias de evangélicos. Os membros da tenda adquiriram o terreno, mas as famílias se recusam a sair e, em dias de culto, já chegaram até a chamar a polícia alegando descumprimento da lei do silêncio. As sessões acontecem ao som de música gospel.

"Os vizinhos já quebraram oferendas, bancos, depredaram o centro. O convívio está insuportável", contou Anderson Ferreira, um dos dirigentes da tenda. "Temos uma dificuldade imensa de fazer valer a lei. Já tentamos chamar a Polícia Militar por seis vezes, mas nunca fomos atendidos", disse.

Delegado teve de intervir
Três registros já foram feitos na 35ª DP (Campo Grande), assim mesmo só após a intervenção do delegado Henrique Pessoa, coordenador do setor de inteligência da Polícia Civil, que acompanha os trabalhos da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, formada há pouco mais de um ano. Desde então, 28 ações judiciais vêm sendo acompanhadas pela comissão número que, segundo eles, não representa nem 1% dos casos no Estado.

"Estamos acompanhando de perto e quadruplicamos o número de notificações", contou Pessoa. "Os principais acusados são fiéis de igrejas neopentecostais. É um crime que tem de ser combatido, porque tem uma dimensão até internacional, diante da crescente intolerância religiosa no mundo. A Zona Oeste e municípios como São Gonçalo concentram a maioria dos casos", afirmou.
Fonte: Jornal do Brasil
Foto: M.Cavalcanti

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