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Umbanda, 109 anos. Saravá!

Centro Espírita Caminheiros de Santo Antônio de Pádua: dia de festa em homenagem aos ibejis

NESTA QUARTA-FEIRA, 15 de novembro, é feriado nacional, alusivo à Proclamação da República, ocorrida em 1889. A data não tem apenas um significado cívico. Ela é também o Dia Nacional da Umbanda, instituída pela Lei nº 12.644, em 16 de maio de 2012, que referencia e coloca em primeiro plano o episódio em que o Caboclo das Sete Encruzilhadas, incorporado no médium Zélio Fernandino de Morais, 109 anos atrás anunciou o nascimento da umbanda, nova prática religiosa, que reuniu elementos dos candomblés, da tradição católica, do espiritismo e dos cultos indígenas. Foi um fato histórico, que rompeu a rotina do bairro de Neves, município de São Gonçalo, fronteiriço com Niterói (RJ), e mais deixou boquiaberta a Federação Espírita do Rio de Janeiro, à época, capital do Brasil, e a sociedade fluminense.

Mais do que estabelecer os parâmetros da nova religião, o senhor Sete Encruzilhadas dizia um NÃO (assim mesmo, em letras maiúsculas) ao preconceito e à discriminação presente nas mesas espíritas, amparadas na doutrina kardecista. Para os adeptos do espiritismo, pretos-velhos e outras entidades eram espíritos menores, sem luz e não poderiam se manifestar ou trazer belas mensagens às suas reuniões. Na prática, essa rejeição embutia sentimentos rasteiros, como o preconceito e o racismo de uma sociedade orientada pelos valores eurocentristas e incapaz de reconhecer os valores culturais, filosóficos e até mesmo de fé do povo negro, que teve seus cidadãos sequestrados e tornados escravos no período colonial do Brasil.

Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade: berço da Umbanda
Independentemente do sectarismo, ainda hoje dominante, a Umbanda, como avisou o Seu Sete Encruzilhada, se constituiu em prática religiosa, atraiu (e ainda atrai) milhares de seguidores. Seus adeptos creem na força dos caboclos, dos pretos velhos, dos ibejis, das senhoras das águas e dos exus e pombojilas.

Os terreiros de umbanda exercem um espetacular papel ao acolher espíritos de todas as vertentes e origens, sejam eles iluminados ou não. Recebe-os com amor e carinho e buscam, por meio das entidades, orientá-los no caminho da paz, da luz e do conhecimento a fim de aproximá-los cada vez mais das orientações emanadas por Zambi (Deus, todo poderoso e criador de todas as forças e energias do universo).

Festejar a Umbanda não é se restringe a uma data no calendário nacional. Ela é prática comemorada todos os dias, a cada sessão nos terreiros deste imenso Brasil, por meio das rezas, dos cânticos e da alegria dos seus adeptos de servirem à espiritualidade, emprestando o corpo à conexão e à comunicação entre o etéreo e a dimensão material.

A Umbanda é fé que se renova a cada instante e se revitaliza com as mensagens de sabedoria dos pretos velhos, com a alegria ibejis (crianças) e dos caboclos, sejam eles de Oxóssi, Ogum, Xangô, que trazem ensinamentos e magias para aliviar as dores das vicissitudes da vida material. A serenidade, o conforto e o acalanto das entidades das águas — Nanã, Oxum, Iemanjá e Iansã — reequilibram as energias dos seus médiuns e dos frequentadores dos terreiros, propiciando-lhes paz interior e disposição para as lutas cotidianas do plano terrestre.  Os exus e pombojilas são os guardiões que amparam e escudam, abrem caminhos e inspiram os seres humanos nessa trajetória terrena.

Centro Espírita Caminheiros de Santo Antônio de Pádua,
fundado 46 anos atrás: dia de desenvolvimento dos médiuns
VIOLÊNCIA E A OMISSÃO DO PODER PÚBLICO

Assim, como no passado, a Umbanda e as demais religiões afro-religiosas têm sido alvo da perseguição de seguidores de práticas de fé eurocentristas, especialmente, os neopentecostais, que dão franca expansão ao pensamento fundamentalista, segregacionista, intolerante, racista, homofóbico e misógino. Em pleno século 21, as casas umbandistas e candomblecistas têm sido alvo da violência e da incapacidade de grupos evangélicos de conviver com a pluralidade e diversidade religiosa que caracterizam o mosaico cultural do Brasil.

A situação é tão grave no país, que, hoje, integrantes de facções criminosas, convertidos à orientação evangélica neopentecostal, fortemente armados, invadem e vandalizam os terreiros de Umbanda e candomblé. Exigem dos dirigentes espirituais, sob a mira de armas de grosso calibre, que quebrem os apetrechos espirituais. Tamanha violência tem sido registrada pela mídia no Estado do Rio de Janeiro, berço da Umbanda, e local onde desembarcaram grandes levas de negros sequestrados na África para serem escravizados no país. Lá dos 847 terreiros, identificados em estudo da Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ), 430 foram vítimas da truculência da intolerância religiosa.

Na Bahia, um dos estados de maior expressão da afro-religiosidade, a realidade também é caótica. Chegou-se ao ponto de as instituições representativas dos candomblés e da umbanda, ante o avanço da intolerância, denunciarem o Estado brasileiro ante a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Organização das Nações Unidas (ONU).  O governo brasileiro tem sido omisso e leniente diante do crescimento da violência contra os afro-religiosos, aviltados no seu direito de crença e culto, como garante a Constituição Federal de 1988.

Por trás da violência dos fundamentalistas, está um projeto de poder político, para eliminar da Constituição a condição do Brasil como estado laico, que contempla entre os direitos fundamentais das pessoas a liberdade de crença e culto. Esse direito seria substituído por um estado teocrático, que tornaria hegemônica a fé evangélica e empurraria à ilegalidade, passível de perseguição pelas forças de segurança pública, as práticas afro-religiosas. Seria o retorno à Idade Média, em que dirigentes e adeptos da Umbanda e do Candomblé teriam punição rigorosa a infringir a ordem do poder público. Retrocesso incabível para o século 21.

A indiferença do poder público reverbera como incentivo às agressões dos fundamentalistas. Não apuração policial dos fatos nem processos judiciais contra os agressores. Em contrapartida, dirigentes dos terreiros são, com muita facilidade, processados sob os mais diversos pretextos por um Judiciário conluiado com os fundamentalistas racistas. Os lamentáveis casos chegam ao domínio público, quase cotidianamente, por meio da mídia. Há um franco e desavergonhado desrespeito às tradições dos umbandistas e dos povos tradicionais de matriz africana, frequentemente, chamados de “macumbeiros” ou “filhos do demônio”.

Em contrapartida, a Umbanda é uma prática construtora da cultura de paz, bem como os terreiros candomblecistas. As duas vertentes acolhem todas as pessoas, independentemente, da orientação sexual, cor, raça, credo ou condição socioeconômica. 

Há consenso na afro-religiosidade de que ninguém chega a uma casa por mero acaso, mas movido pelas energias benevolentes dos orixás em busca de auxílio. O respeito e o acolhimento são padrões que orientam as atitudes dos adeptos das religiões de matriz africana. A violência não é respondida com mais violência, mas com uma cobrança permanente ao poder público para que as leis sejam respeitadas e os direitos à liberdade religiosa garantida pelo Estado.

Hoje, quando comemoramos o Dia Nacional da Umbanda, roga-se a Zambi que dê mais discernimento aos homens, mulheres e dirigentes desta nação, para que haja uma convivência pacífica, respeitosa e harmoniosa entre os adeptos dos diferentes credos. Que sejam respeitadas as diferentes formas de diálogo com sagrado. Quem tem fé em Deus não pode agir com violência contra seus semelhantes.
Paz de Zambi a todos
Salve a Umbanda!
Saravá!
Texto copiado do  livro Umbanda, Mitos e Realidade

Para saber mais:
Autora: Iassan Ayporé Pery

Para saber mais sobre intolerância religiosa:


Comentários

Unknown disse…
Belíssimo texto! Parabéns! E salve nossa amada Umbanda...

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