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À reflexão: Transformar ou partilhar migalhas?

UM EMPRESÁRIO RIQUÍSSIMO foi vítima de um golpe do sócio. Perdeu tudo que havia conquistado durante anos de trabalho. A falência o levou à mendicância. Mal trajado, ele passou a pedir esmolas na porta de igrejas e templos. Com o passar do tempo, o ex-empresário recuperou a fortuna que tivera. Reconquistou a vida anterior e passou a desfrutar do bom e do melhor. Estava velho e poderia parar de trabalhar, ou seja, ir maltrapilho às ruas. Enfim, a fortuna acumulado o permitiria desfrutar de uma vida tranquila e deixar a fase da mendicância no passado.

Mas ele manteve a rotina de andar coberto de trapos e pedir, todos os dias, esmolas à porta das igrejas. Indagado por que continuava com aquela vida, quando nada lhe faltava, ele respondeu que, ao longo dos anos, constatou que as pessoas precisavam do seu trabalho. Elas se sentiam bem ao dar uma moeda ao deixarem o templo. O gesto complementava o ato de fé, um alívio à consciência, como se a doação lhes redimissem dos erros cometidos, pois estavam ajudando a um pobre, pelo qual nunca tiverem interesse em conversar, saber o que aquele miserável precisava, os motivos que o levaram a ficar na rua em situação tão difícil. Entregavam a moeda e também a indiferença.

A história é resumo de um livro do qual Sandra, integrante da Ação Social Caminheiros de Antônio de Pádua (Ascap), nos contou na manhã de ontem, quando nos preparávamos para refazer o cadastro das famílias beneficiárias de cestas básicas no Setor Habitacional Sol Nascente, parte da maior favela da América Latina. Sandra não lembra mais o título nem mesmo o nome do autor. A história, no entanto, ilustra a atitude de muita gente, que acredita que “doar aos pobres é emprestar a Deus”, seria a pavimentação da estrada que a conduzirá ao paraíso ou — quem sabe? — garantia plena uma vida nababesca após o desencarne.

Será mesmo? Ou a miséria com a qual nos defrontamos todos os dias não decorre das escolhas equivocadas que fizemos e que fortaleceram os que muito têm em detrimento daqueles que nada possuem? Dar uma esmola teria o efeito de apagar as nódoas que deixamos na nossa caminhada. A doação de roupas e de outros bens aos que se encontram na miséria é a remissão dos nossos erros? Ou será que quando nos deparamos com pessoas carentes de tudo não teríamos a missão de ajudá-las a se erguerem e conquistarem uma vida digna?

Doar por doar é um gesto automático. Retira-se do bolso uma moeda e a entregamos ao mendigo, ao deficiente que a suplica, ou juntamos os panos que não nos servem ou que entendemos démodé e os damos ao outro que pouco ou nada tem. São gestos eventuais. A partir dai nos autointitulamos “caridosos”. Enchemos o peito de satisfação pessoal, convictos de que “Deus está vendo e anotando a minha bela ação”.  Pura ilusão. Ora isso é tão pouco quando não nos falta nada: temos boa casa, cama para dormir sob lençóis limpos e bem passados; café da manhã; almoço, lanche da tarde e jantar. Ganhar mais dinheiro, trocar de carro, reformar a casa ou planejar a próxima viagem — grandes problemas...

Já passou pela nossa cabeça que a mão estendida não teria outro significado? Não poderia ser um chamamento para uma conversa, onde seríamos o ouvido ou ombro amigo para um desabafo? Para um pedido de ajuda que vai muito além da moeda ou do agasalho, mas apelo por orientação que pudesse retirar a pessoa daquela condição indigna?

Penso que uma ação social é muito mais do que doações infindas. Ação social é transformação. É ser agente de uma mudança social na vida daqueles que pouco ou nada têm. É ajudá-los a construir e conquistar um patamar mais elevado de condição de vida. É ressuscitar em cada um a fé, que tantas vezes  nos falta, de que é possível mudar e romper com as desigualdades, quando todos são humanos, partículas de uma única fonte de vida: Zambi. É guindá-los do poço da miséria em que se encontram e fazê-los alcançar a superfície para que possam andar, correr, pular, encontrar caminhos e fazer escolhas.

Doar sem promover seria o mesmo que servir um pouco de alimento a quem está no fundo do poço para que continue ali, invisível, sobrevivendo no cativeiro da miséria. Vamos mantê-lo preso para passar a imagem de somos “caridosos”, “pessoas do bem”.

Ao fim não estaríamos invertendo os papéis? Não seríamos, na verdade, prisioneiros da nossa vaidade, arrogância e da falsa compreensão de que somos melhores do que aquele alguém que não possui nenhum bem do qual dispomos, mas que se presta ser o nosso cativo de estimação.  Será que não estaríamos traindo ou ignorando a nossa missão de tornar esse mundão de Deus melhor, ainda que seja colaborando com a transformação de poucas almas, para que haja um efeito multiplicador? Ou será que viemos aqui para entregar ou receber moedinhas à saída do templo?

Duvido que sejamos tão rasos a esse ponto, sobretudo porque somos umbandistas — pessoas escolhidas para colaborar na evolução dos irmãos da espiritualidade para que alcancem patamares cada vez mais elevados de luz. Mas se não conseguimos colaborar com aqueles que enxergamos, que estão ao nosso lado, qual seria a nossa real capacidade de ser instrumento para a evolução de quem nosso olhar não alcança? Ser umbandista é ser agente de transformações em todas as dimensões (material e espiritual), que levem ao crescimento e à expansão da essência humana, na qual não comporta desigualdades e injustiças com aqueles que tratamos de “irmãos”.  Precisamos deixar de nos alimentar das nossas migalhas.

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