Caravana chega aos invisíveis de Ceilândia
Voluntários e
diretores da Ascap vão às ruas da maior cidade do Distrito Federal para
oferecer alimento e roupas aos que vivem em condições subumanas. É a Caravana de
Antônio de Pádua em mais uma ação
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Morador de rua se aproxima para receber sopa oferecida pela Caravana |
QUEM CHEGA à Quadra 1/3 de Ceilândia Norte se depara com um prédio normal de famílias de classe média. Um olhar mais acurado percebe que o subsolo do edifício é triste depósito de pessoas que lá buscam se abrigar do frio da noite. Pelas aberturas da rede de captação de água pluvial é possível distinguir, apesar da pouca luminosidade, colchões, utensílios, pedaços de cobertas e madeiras. Sobre a cabeça dessas pessoas invisíveis aos olhos da sociedade e dos poderes, a vida corre normal. O acesso delas ao abrigo é por meio de um suposto bueiro, cuja tampa de ferro foi substituída por um pedaço de madeira.
O entregador de pizza
chega, dirige-se à portaria, cumpre a tarefa e volta ao posto de trabalho ou
segue adiante para entregar mais encomendas. Parece que sob seus pés e as rodas
da motocicleta não há vida. Sim, podemos dizer que a vida foi abandonada pelos
viventes dos andares superiores. Se eles sabem que ali há um grupo de pessoas
em situação de extrema vulnerabilidade social, elas não alteram a rotina. É
vida que segue. A miséria e a desigualdade se tornaram algo normal, quando
deveriam incomodar a todos.
Por que uns têm tanto
e outros vivem em condições subumanas? Como mudar a triste realidade que
incomoda a poucos, quando deveria indignar a maioria? Por meio de uma reflexão
profunda, encontraremos respostas para estas e muitas indagações que a cena
provoca.
CRESCIMENTO
Mas a urgência da situação deixa esse exercício de pensar para depois — em grupo, pois a solução é coletiva, não individual. Agora, é preciso dar pelo menos um alento àqueles que lá estão. Foi com esse intuito que a Caravana de Antônio de Pádua, em sua segunda edição, promovida pela Ação Social Caminheiros de Antônio de Pádua (Ascap), saiu, na noite de sábado (23/9) em busca de moradores de rua de Ceilândia. Entre a primeira e a segunda edição, a Caravana cresceu: ganhou mais 17 voluntários, que se somaram aos diretores e integrantes do Conselho Fiscal. Cinco carros se deslocaram pelas vias da cidade. Cada veículo carregava um pouco das doações: um com a sopa e o achocolatado quente, outros com roupa e mais um com a mesa de suporte para distribuição da comida.
CRESCIMENTO
Mas a urgência da situação deixa esse exercício de pensar para depois — em grupo, pois a solução é coletiva, não individual. Agora, é preciso dar pelo menos um alento àqueles que lá estão. Foi com esse intuito que a Caravana de Antônio de Pádua, em sua segunda edição, promovida pela Ação Social Caminheiros de Antônio de Pádua (Ascap), saiu, na noite de sábado (23/9) em busca de moradores de rua de Ceilândia. Entre a primeira e a segunda edição, a Caravana cresceu: ganhou mais 17 voluntários, que se somaram aos diretores e integrantes do Conselho Fiscal. Cinco carros se deslocaram pelas vias da cidade. Cada veículo carregava um pouco das doações: um com a sopa e o achocolatado quente, outros com roupa e mais um com a mesa de suporte para distribuição da comida.
Os locais, como o do
edifício, são deprimentes. Entre latas, pedaços de papelão e de madeiras,
famílias inteiras se abrigam na noite fria. Na maioria dos locais visitados,
utensílios domésticos, como panelas e fogão, não estão à vista. Na chegada, a
Caravana é recebida com surpresa e
também com desconfiança. Mas ninguém recusa a sopa de legumes, o achocolatado
quente e as roupas que foram doadas.
A maioria foi
receptiva ao cadastramento que a Ascap iniciou para obter dados como nome,
origem das pessoas, idade, profissão, tempo em que vivem nas ruas, como
sobrevivem, o que as levou a viverem em situação tão difícil e, principalmente quais
são os seus desejos. Ninguém quer continuar na situação em que se encontra.
Como qualquer pessoa, elas desejam ter casa, trabalho e uma vida digna.
Entre os
entrevistados, Luiz Carlos Mateus, 48 anos, e a mulher, Rosemeire Vírginia,
vivem há mais de dois anos na rua. Hoje, estão abrigados sob um viaduto do
Metrô. Parte da moradia tem como parede o concreto da obra e completada com papelão
e madeira. Ele nasceu em Alfenas, Minas Gerais. Ela é de Bauru, São Paulo.
Ambos tem 9 filhos de casamentos anteriores e um, da união deles. Chegaram a
Brasília em busca de tratamento médico para Luiz, que enfrenta dificuldades com
as grosas varizes na perna esquerda. A sobrevivência é retirada da coleta e
venda de plásticos.
O casal gostaria ter
uma atividade melhor, como trabalhar em uma chácara ou sítio, pois ambos dizem
ter intimidade com o trato da terra. Se vencerem a luta pelo tratamento de
saúde de Luiz, eles têm como meta voltar à agricultura. Caso contrário, não
veem outra opção a não ser retornar para próximo aos familiares, em São Paulo
ou em Minas Gerais. Eles ficaram agradecidos e, por diversas vezes, disseram
obrigado pela sopa, o chocolate e as roupas que receberam da Caravana de
Antônio de Pádua.
A situação de Luiz e
Rosemeire, por mais dolorosa que pareça não se compara com a de outros grupos que vivem em
uma área especial da Quadra 3 de Ceilândia. O cenário é desolador. Pedaços de
panos, plásticos, papelão e outros materiais compõem as moradias. O frio
intenso da noite une as pessoas. Elas ficam muitas juntas para se aquecerem.
Quando os veículos da Caravana estacionaram no local, a curiosidade atraiu
alguns dos integrantes. Histórias tristes, desesperança acompanhavam as pessoas
que aceitaram a sopa e tentavam achar peças de roupas entre as levadas pela
Caravana. Não havia disputa, mas busca intensa por agasalho.
DESAFIO
As histórias serão
contadas, mais adiante, pelos entrevistadores das pessoas atendidas. Será um
novo capítulo da Caravana de Antônio de Pádua. A ideia é mostrar aos que amigos
e amigas dos Caminheiros, como solidariedade é, de fato, atitude. Mas só isso
não é suficiente. O desafio é buscar caminhos ou ajudar na construção deles
para que as pessoas reconquistem a dignidade a que tem direito e merece todos os seres humano. Não será uma empreitada fácil. Todos nós,
integrantes e voluntários da Ascap, apostamos que cada história, cada
personagem poderá sensibilizar mais voluntários e, juntos, conseguiremos recontar
cada história e o final, temos fé nisso, será feliz.
Isso será possível,
pois acreditamos que a nossa ação será conduzida por inspiração da
espiritualidade e em sintonia com um dos muitos ensinamentos de Miguel de
Cervantes, dramaturgo e poeta castelhano — popularizado pelos inesquecíveis
John Lennon e Raul Seixas—, sintetizado no pensamento: "Sonho que se sonha
só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é
realidade".
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