Salve os pretos velhos. Hoje é dia de festa

Foto:reprodução_assema.com.br
HOJE, a partir das 19h30, o Centro Espírita Caminheiros de Santo Antônio de Pádua homenageia uma das mais belas falanges da Umbanda: os pretos velhos. A data alusiva a eles é 13 de maio, tida como a da libertação dos negros sequestrados na África e tornados escravos em terras brasileiras.

Eles vieram do Congo, de Angola, de Benguela, da Guiné, de Moçambique, da Serra, de Aruanda. Foram milhões de negros. A maioria se tornou símbolo de resistência à opressão dos colonizadores europeus. Não se curvou aos maus-tratos pelos quais passou nas senzalas, não abriu mão da fé nem da cultura trazidas da terra de origem como bagagem nos porões dos navios negreiros.

Por mais de 400 anos, essas pessoas viveram sob condições desumanas. Sobreviver era a superação do extremo, demonstração de força além do suportável. Eram tidas como “coisas”, “objetos”, seres sem alma, mas mercadoria de grande valia. Elas foram força motriz que patrocinou grandes riquezas materiais, o crescimento econômico do país, do qual nunca usufruíram.

Grande parte dessa alma negra, desrespeitada e vilipendiada, conquistou espaço especial no mundo espiritual. O sofrimento fortaleceu e tornou mais brilhante a centelha de luz de Zambi. Os negros aprenderam a perdoar seus algozes, transformaram a dor em força, em sabedoria e se tornaram iluminados no plano não material da vida, que não se encerra com o desencarne. É perene em todos os planos.

Em vida, deixaram um legado, que vai muito além dos ganhos materiais e que, hoje, explica a origem de grandes fortunas, base das desigualdades sociais e econômicas do nosso país. Plantaram a semente da Umbanda, espalharam em solo brasileiro as religiões afro-brasileiras de diferentes vertentes, fibras dos tecidos culturais, que dão característica própria a cada região e tornam o Brasil um mosaico de tradições e de expressões de fé.

Hoje, 129 anos depois da Lei Áurea, lembramos  dos negros, que sob açoites no pelourinho, não renunciaram a Zambi, a Olorum, a Olodumaré e a todas as denominações dadas a Deus pelos povos africanos. Ao homenagear as pretas e os pretos velhos, entidades que, em mais um gesto de amor, trazem ao mundo da matéria suas vibrações e energia para alento das dores causadas pelo egoísmo, pela ganância, pelo desamor ao próximo.

 Mais uma vez, entre milhares de outras, esses seres iluminados mostram a imensa sabedoria que têm e que pode ser traduzida com bons conselhos, em saber ouvir  e em expressão de carinho com uma humanidade tão carente de humanidade com seus semelhantes.

Suas mirongas não são feitiçaria, mas demonstração de capacidade e sabedoria na manipulação de energias que povoam o universo. É a alquimia dos ingredientes divinos em favor do bem-estar individual e coletivo. Tradução da força de quem superou as mais cruéis adversidades e delas forjou a luz, para iluminar caminhos, acolher almas e ajudar no crescimento espiritual e material dos viventes deste e de outros planos.

Hoje, ao homenagear as pretas e os pretos velhos, eis que surge mais uma oportunidade de reflexão sobre atitudes e comportamentos. Estamos realmente libertos? Ou será que ainda nos manteremos  aprisionados pelos grilhões, que nos tornam seres menores, pelo egoísmo, pela falta de solidariedade, pela indiferença ante o sofrimento daqueles que estão ao nosso lado? Será que estamos agindo para conquistar a nossa alforria e a verdadeira evolução espiritual ou continuamos atrelados à maledicência, aos sentimentos rasteiros, que nos subtraem o sentido de ser humano?

Ou será que não resistiremos, como os negros, à intolerância e nada faremos contra o racismo, que usa referências tão negativas para impor as desigualdades entre os humanos, apenas pela cor da pele ou pela crença diferenciada?

Somos cumulativos, como os senhores de fazenda, que retiravam dos negros todas as forças físicas, sob tortura, para enriquecerem, ou conseguimos ser generosos e partilhar o muito que temos com quem pouco ou nada possui?

Homenagear os pretos velhos é rever conceitos de solidariedade, de fraternidade e buscar, sob a inspiração deles, o verdadeiro sentido dessa enorme oportunidade que Zambi nos deu ao nascermos para a vida material. Que legado deixaremos como exemplos àqueles que aqui ficarem ou vierem a ter a mesma chance?

Hoje, em nossas preces às pretas e aos pretos velhos devemos pedir que a bondade deles oriente nossas ações no dia a dia, na convivência com amigos e não amigos, com os familiares, com os colegas de trabalho e em todas as situações a que estamos expostos nesta vida.
Que sejamos sempre dignos da benevolência dessa grande e magnífica falange, mais uma dádiva de Zambi à humanidade. Que Ele nos liberte das nossas deficiências e nos faça forte na nossa fé e missão.
Salve as pretas e os pretos velhos!
Salve a nossa ancestralidade!
Adorê, as almas!

   Hoje é dia de festa
   Hoje tem alegria
   No gongá de Antônio
   Hoje tem alegria

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