DIA NACIONAL DE COMBATE À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA: DATA QUE NÃO DEVERIA EXISTIR


» Rosane Garcia

Nesta quinta-feira (21/1), em vários pontos do país, adeptos de diferentes confissões de fé vão às ruas na luta pela liberdade de dialogar com o sagrado da forma que entendem e desejam. O Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa — 21 de janeiro — foi instituído em 2007, após a morte da sacerdotisa de candomblé Gildásia dos Santos, conhecida como Mãe Gilda. Um retrato dela foi estampado na capa da Folha Universal (órgão de imprensa da Igreja Universal do Reino de Deus — Iurd) para ilustrar a manchete: “Macumbeiros charlatões lesam o bolso e a vida dos clientes”. Ela sofreu infarto e não resistiu. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) condenou a instituição a pagar indenização de quase R$ 150 mil aos filhos e marido da ialorixá. O valor foi irrisório ante a perda de uma vida.

O episódio mostrou a barbárie cometida por aqueles que rejeitam as religiões de matriz africana, os muçulmanos e os seguidores de diferentes crenças. Mais do que intolerância, as agressões são motivadas pelo racismo. A Justiça abranda as punições e enquadra as denúncias como injúria racial. Age contra a realidade e ignora a verdade dos fatos. Ao fim, a impunidade prevalece e estimula mais violência, compondo um círculo vicioso alimentado pela omissão e leniência das instituições de Estado.

Em Brasília, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) fará, às 19h,desta quinta-feira, ato para lembrar o dia, quando será assinado o 1º Pacto pela Liberdade Religiosa e Laicidade do Distrito Federal. As manifestações, embora importantes, são insuficientes para conter a fúria insana dos fundamentalistas cujo projeto político de poder inclui a dizimação das instituições afrorreligiosas, sejam umbandistas, sejam candomblecistas.

A falta de providências e medidas severas de punição aos agressores tem sido força motriz dos fundamentalistas. Em 2015, no DF e em vários municípios goianos do Entorno, 15 casas de matriz africana foram destruídas e incendiadas. As autoridades de segurança pública viraram as costas para os crimes. Em vários locais, sequer foram feitos os boletins de ocorrência.

O racismo e o preconceito estão entranhados nas instituições de Estado, em grande parte sob o comando de fundamentalista. Assim, a luta é desigual e cada vez mais injusta com os afrodescendentes, e não só com eles, mas quaisquer outros adeptos de religiões que não são orientação eurocentrista.

Hoje, o mundo fica consternado diante das lutas fratricidas que ocorrem no Oriente Médio e na África. Os atos terroristas capitaneados pelo Estado Islâmico e pelo Boko Haram, na Nigéria, matam milhares de pessoas, crianças e adolescentes são violentadas sexualmente, enterradas vivas, queimadas em jaulas. As atrocidades não têm limite e se espalham por países europeus e estados norte-americanos por meio de atentados.

No Brasil, os fundamentalistas caminham para violência semelhante. Nada é feito de concreto para barra a cruzada insana contra os terreiros. Até quando o Estado será omisso ante tamanha afronta aos ditames constitucionais? Até quando ser negro é ser alvo da violência desmedida do Estado e dos extremistas da fé, protegidos por sentenças frouxas e acanhadas? Faltam política públicas para garantir o que determina a Constituição Federal.

Até quando o Estado vai ignorar a importância social dos terreiros, que acolhe, sem distinção de raça, credo, orientação sexual ou condição econômica aqueles que batem à porta? É preciso reagir e, ao mesmo tempo, fortalecer a construção de cultura de paz. Deus é único e Ele nos deu a liberdade de escolher o caminho que melhor nos aprouver para chegar a seus pés.

Pertenço aos Caminheiros de Santo Antônio de Pádua, casa umbandista que têm hipotecado profunda e destemida solidariedade às instituições afrorreligiosas vítimas da intolerância. Soma-se à luta contra quem pretende impor um Estado teocrático, em detrimento das liberdades individuais. Neste 21 de abril, tanto eu quanto os Caminheiros reafirmamos o compromisso com direito de escolha de cada pessoa e de defesa dos valores da Umbanda: fé, paz e amor.  O 21 de janeiro é data que não deveria existir.

PROGRAMAÇÃO
ATO NA OAB-DF
Horário: 19h
Local: SEPN 516, Bloco B, Lote 2

Comentários

salvesalve disse…
Penso que jamais devemos nos revoltar pela hipocrisia dos ignoranres, fazer nossa parte,sem agressão em nossos corações.

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