Intolerância religiosa será capítulo de novela

A intolerância religiosa — face maquiada do racismo — volta à tevê, por meio da novela das 19h, da Rede Globo. Personagem da trama, Lilica, frequentadora de um centro umbandista será apedrejada por evangélicos. A ficção inspira-se na realidade para, mais uma vez, denunciar a escalada de violência contra os adeptos da aforreligiosidade. Os insultos aos negros são, normalmente tratados como injúria racial cuja punição é bastante branda se comparado ao crime de racismo que imprescritível e inafiançável, com pena de privação de liberdade para o agressor. A trama deverá ir ao ar na segunda quinzena de outubro.

No Brasil, há uma tendência de mitigar a violência contra os negros. Em relação a eles os crimes são vistos com de baixo potencial de agressividade. Há, sem meias palavras, justiças diferentes: aos negros o rigor da lei; aos brancos, as benesses da legislação. Assim, empurra-se com a barriga o avanço da violência contra os pretos e a tudo que ele representa.

As instituições públicas estão sempre abertas para que as religiões de matriz europeia possam fazer cultos e celebrações. Os negros não podem tocar os atabaques, louvar os orixás nos espaços institucionais. Nesses casos, as portas se fecham, pois prevalece o entendimento de que o Estado é laico. Mas a laicidade não vale para as expressões de fé dos colonizadores, por quê? Prevalece o racismo institucional.

Há poucas semanas, a jovem Jéssica foi agredida e constrangida por funcionária de uma rede de supermercados no Rio de Janeiro. Motivo: ela estava de branco, com um turbante (ojá) na cabeça, pois era recém-iniciada no candomblé. "A que demônio você serve?", questionou, aos gritos a funcionária do mercado, agarrada aos braços de Jéssica, que acabara de fazer compras. O episódio foi denunciado à Delegacia de Polícia e sacerdotisa Márcia de Oxum tomou a decisão de levar o caso à barra do tribunal em busca de punição legal à agressora de Jéssica.

Diferentemente dos fundamentalistas neopentecostais, umbandistas e fundamentalistas não usam expressões como "demônio", "satanás", "diabo". Essas palavras não têm espaço no vocabulário, no ritual ou na teologia afrorreligiosa. Na alegria ou na tristeza, invocamos Zambi ou Olodumaré (Deus, criador de todas as coisas) e os orixás, seja para agradecer ou pedir ajuda. Os fundamentais invocam tais personagens que, segundo eles povoam o inferno, provavelmente pela estreita sintonia com as atitudes reproduzem ante aqueles que não transformam a Bíblia em instrumento de agressão.

Umbandistas e candomblecistas reconhecem todas as formas de diálogo com o sagrado. A catequização das pessoas não passa pela prática afrorreligiosa.  Os centros, tendas ou barracões de umbanda e candomblé estão sempre abertos a receber todas as pessoas, sem pouco se importarem com a religião, a etnia, a orientação sexual. Umbandistas e candomblecistas têm convicção profunda de que todos, sem distinção, são filhos do grande pai Zambi.

Comentários

Haia disse…
Abaixo contra os atos de intolerância religiosa, vamos valer nossos direitos.
Intolerância religiosa é crime. DENUNCIE!!!
creusa lins disse…
Causou-me surpresa saber que a Rede Globo vai, finalmente,abordar a Umbanda sob um outro olhar que não seja aquele de inserir "guias" ou outros elementos em personagens de bandidos ou ignorantes para que, de forma sutil, sejam identificados como seguidores e praticantes da Umbanda ou Candomblé.
Talvez o fato de que alguns artistas da Globo sejam praticantes ou seguidores da Umbanda, como a atriz Juliana Paes e a recém contratada Mônica Iozzi que,durante o programa CQC, se declarou umbandista, tenha feito aquela rede de televisão se atentar de que esse segmento vem crescendo, apesar de muitos acharem que está em declínio.
Façamos a nossa parte, vamos prestigiar a novela; vamos nos declarar umbandistas, sempre que possível; vamos praticar a Umbanda com responsabilidade, respeito e gratidão.

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