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Temperança

 
Mensagem de Pai Joaquim do Congo
Por Fátima Gonçalves

Temperança é uma palavra bonita e que tem um grande significado. A primeira vez que a escutei, eu tava no cativeiro. Eu inda era muito moço, tinha meus 14 anos, e havia acabado de sair do tronco depois de levar muitas lambadas. Tava muito revoltado com o capataz, que inventava mentiras pra o sinhozinho e com isso fazia os escravos apanhar. Eu só pensava em fugir, em me vingar, em fazê e acontecê, e mais parecia um cão raivoso...

Nessa mesminha hora, foi ter lá na fazenda um padre já velhinho, muito bom, muito educado nas maneiras, de fala mansa e olhar bondoso. Ele sempre ia dar um dedo de prosa com o sinhô e com a sinhá, e dispois dava um jeito de chegar até nos escravos e conversar com nóis. Falava que Nosso Sinhô Jesus Cristo tava olhando por nóis e que um dia aquele sofrimento ia se acabá. Que ele era sincero, nunca duvidei. Só não punha fé que aquilo fosse acontecê...

Pois naquele dia, ele falô da temperança. Pensei: será argum tempero novo pro nosso angu? Um tempero capaz de trazê esperança? Ou era o nome de alguma santa nova que ele tava falando? Enfim, que ele se aproximou de mim, pegô do rosário que trazia na cintura, pegô dum pano branco e bem limpo e molhô ele numa água que cheirava a azeite e rosas, e começou a limpar minhas feridas. Aquilo me deu um grande alívio!

Enquanto curava meu corpo, o bom velhinho foi falando que era preciso temperança: controlar meu desejo de vingança, pois aquela revolta não ia trazê nada de bom, mas só me enfraquecia e me fazia sofrê ainda mais. Falou que, pra sair vitorioso, a gente precisa saber quem é e do quê precisa na vida, e dar valor no sentimento, pra ter domínio dos desejos, pois o desejo nem sempre é o melhor pra nóis.

Que tem horas que a gente não pode fugir do que acontece; então precisa buscar pela calma, pra não piorar as coisas. Que havia muita gente lutando pra acabar com a escravidão, inclusive ele mesmo, e que um dia isso ia ser uma realidade, porque nada é impossível pra quem tem um sonho e uma vontade firme. Que eu precisava ficar forte pra esperá esse dia. Enfim, que ele falou e falou, contou umas histórias, fez uma reza, me consolou e acabou por me fazer acreditar que eu valia arguma coisa de bom nessa vida. Purque eu duvidava, até então...

Já era noite quando ele se foi. Mais calmo, adormeci. E sonhei: eu me vi num tempo bem distante, em outro lugar e com outra aparência. Eu era um velho, roupa comprida e bordada, tinha a pele mais clara e meio amarelada, os olhos puxados, cabelo escuro e liso, rosto mais cheio e arredondado: era um chinês. Ao meu lado havia outros velhos de aparência igual, num lugar que parecia uma sala de estudo, e nós estávamos orientando alguns jovens e traçando planos para um futuro “reencarne”...   Eu, enquanto escravo, não fazia ideia do significado de tudo aquilo!

Mas “dentro do meu sonho, e como chinês”, eu sabia!... Sabia que era eu mesmo, que me preparava, que haveria outros comigo, sabia dos planos e preparativos e que era possível conseguir realizá-los a contento. Hoje posso dizer que aquilo foi uma expansão de consciência ou uma viagem astral; o que me permitiu acessar informações a respeito de experiências anteriores do meu espírito, até então arquivadas dentro de mim.

Chegara o momento de recordar! Acordei outro! Dali em diante, eu andei mais calmo, esforçando-me por perdoar as maldades do capataz e mentalmente pedindo a ele que me perdoasse. Um ano depois, ele foi despedido. O novo capataz era muito católico e, embora cumprisse suas funções, era mais brando e amigável. Dizendo-se temente a Deus, ele se empenhava em não humilhar os escravos, e todos o respeitavam.

Um belo dia, ele adoeceu duma febre estranha, que os médicos não conseguiam desvendar e nem curar. Ele ficou à beira da morte. Foi quando tive a intuição de fazer um preparo de ervas e uma reza no corpo dele. Pedi ao sinhozinho, fui autorizado a realizar o procedimento, e o capataz se salvou. E ali começou o meu trabalho de benzedor de brancos e de escravos – pois que gente é tudo igual!...

De quando em quando, acontecia com outro escravo o que se passara comigo, pois lá vinham “os velhos chineses” me orientar: que eu passasse as beberagens, banhos, rezas e benzeduras a quem estivesse pronto. De modo que tudo foi se pacificando. Foi uma longa caminhada, até ao fim dos meus dias na fazenda. Um tempo de aprendizado, um tempo feliz, com a Graça de Nosso Sinhô Jesus Cristo!

E o meu recado de hoje, para os queridos filhos da Umbanda – Sagrada Umbanda que me acolheu e que ainda hoje me ampara e ensina –, é esse: temperança!

Fiquem na Paz!

Fonte: Jornal de Umbanda Sagrada – Nº 177 – Fevereiro de 2015

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