PARCEIRO NA SOLIDARIEDADE

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SEMANA DOS PRETOS VELHOS [6]: Magia forte, uma história para reflexão

César enfrentava aquela casa de umbanda havia dois anos: um ano na assistência e outro como cambone de Pai Josias. Era um jovem que amava tanto a religião que professava que, nos últimos três  meses, resolveu participar das reuniões de desobsessões daquela casa de caridade.

Naquela gira, entretanto, César demonstrava um semblante preocupado e pesaroso.

Percebendo as emoções de seu pupilo Pai Josias chamou-o a sentar-se diante de si.

─ Como é que vai suncê meu fio?

─ Eu até que estou bem vovô, graças a Deus!

─ Então por que este "até" zifio? Tem algo preocupando suncê?

César ficou desconcertado, como se estivesse procurando as palavras certas a serem ditas, mas a entidade reforçou o pedido dizendo:

─ Pode falar sem acanhamento nenhum zifio, pois qualquer dúvida no coração não é sinal de vergonha, mas desejo de saber melhor as coisas e o conhecimento é algo muito lindo meu fio, pode fazer perguntador pra nêgo!

César sorriu com aquele jeito tão curioso e perspicaz que só os preto-velhos têm de dizer as coisas e falou:

─ O senhor acha que estou bem vovô?

─ Depende meu fio, o que é estar bem para você?

César sorriu enquanto seu olhar marejava e foi quando a entidade disse-lhe:

─ O que é que tá trazendo tanta preocupação a suncê, meu fio? Pode contar porque nêgo só vai escutar sem julgar!

─ O senhor me desculpe vovô, mas acho que estou necessitando de uma magia forte de proteção.

─ Mas por que zifio, o que é que tá acontecendo com suncê?

─ Como o senhor sabe faz três meses que comecei a participar dos trabalhos de desobsessão desta casa.

─ Isto, nêgo se alembra meu fio.

─ Então, acho que o senhor vê que eu procuro fazer este trabalho com todo o meu coração.

─ Nêgo não tem dúvidas disso meu fio!

─ Pois bem, mas desde quando eu entrei nestes trabalhos, a cada mês,um membro de minha família adoeceu seriamente: há três meses, foi minha esposa; mês retrasado, foi minha filha; e, este mês, foi minha mãe, que está passando um tempo conosco.

─ Nêgo tá entendendo zifio.

─ Como eu tenho vindo ao terreiro penso que deva ser mais difícil para as forças do baixo-astral atingir a mim tentando impedir-me de vir às reuniões de desobsessão, assim, acho que as trevas estão tentando atingir-me por meio de minha família.

─ E suncê acha que o terreiro não está fornecendo a devida proteção que suncê e família carecem pra viver sem estes ataques e fazerem o bem com menos preocupação, e justamente por isto estava todo envergonhado de vir conversar com este nêgo, não é?

César cambonava aquela entidade já há certo tempo, mas a forma como ela demonstrava conhecimento e compreensão acerca do seu atual estado mental sem que ele precisasse verbalizar muita coisa deixou-o boquiaberto.

─ Suncê não precisa se sentir envergonhado, pois como nêgo disse antes a busca do conhecimento no bem traz é luz para o espírito.

─ O senhor está certo vovô!

─ Zifio, eu entendo sua preocupação, mas antes de passar uma magia forte suncê permite nêgo contar uma história?

─ Claro vovô, suas histórias são sempre ótimas, fique a vontade!

─ Zifio, certa vez acabou a comida no esgoto e uma ratazana se viu obrigada a sair de sua morada para habitar noutro canto. Saindo de sua morada o animal observou que poderia entrar em duas casas: uma era asseada, limpa e organizada; a outra era uma imundice só, pois a não era varrida há meses, os móveis estavam cobertos de pó e havia inúmeros entulhos espalhado pelo chão, suncê tá entendendo zifio?

─ Estou sim senhor!

─ Então nêgo pergunta: se suncê fosse esta ratazana em qual destas moradas escolheria habitar?

─ Com certeza que seria a casa suja!

─ Por que zifio?

─ Por que se parece mais com o antigo habitat da ratazana.

─ Muito bem zifio, afinal na casa limpa não há nada que desperte afinidade na ratazana, não é isso?

─ Isso vovô, é isso mesmo, é tudo questão de afinidade!

─ Muito bem meu fio! Nêgo gostou desta sua ultima percepção.

─ Zifio, nêgo pode fazer mais uma pergunta?

─ Claro vovô, não precisa nem pedir!

─ Fio, tem muito tempo que suncê não defuma sua casa?

─ Tem sim vovô, por volta de dez meses.

─ Mas suncê não é umbandista?

─ Graças a Deus!

─ E o que tem impedido suncê de fazer defumador no seu casuá?

César encabulou-se e baixou a cabeça. A entidade continuou:

─ São as tarefas, as atividades, as dificuldades e os problemas do dia-a-dia não é meu fio?

─ É isso mesmo vovô, minha vida é muito atribulada e ai eu acabo me acomodando com a situação.

─ Pois é meu fio, realmente nêgo sabe que a vida de suncês no corpo de carne é realmente bastante difícil, mas, ainda assim, devo pedir que você retorne a defumar sua casa. Suncê verá como as coisas ficarão diferentes.

─ Pode deixar vovô, farei tudo como o senhor pede, mas e aquela magia forte, o senhor pode me ensinar?

─ A magia forte que nêgo falou antes zifio?

─ Isto vovô!

─ Então zifio, este preto-velho acabou de passar pra suncê.

─ A defumação?

─ É zifio! Por que a cara de espanto?

─ Ora vovô a defumação não funciona para afastar permanentemente espíritos perturbados, não é verdade?

─ Fio tá sabido hein!

─ Até onde sei, na realidade, a defumação serve mais para limpeza energética dos lugares, não é verdade?

─ Fio recordando o que conversamos ainda agorinha: onde que é mais provável de uma ratazana morar? Numa casa limpa ou numa casa suja?

─ Na casa suja vovô, mas mesmo que a casa estivesse limpa o rato poderia entrar.

─ Mas não é mais fácil expulsar o rato de uma casa se ela estiver limpa?

─ Puxa vovô ou o senhor não está entendendo ou não está querendo entender!

─ Desculpa a ignorância deste nêgo meu fio, mas explica mais um pouquinho para que suncê perceba que talvez seja suncê que num tá entendendo este véio.

─ Não vovô eu entendi tudo que o senhor falou: o senhor determinou que eu voltasse a defumar minha residência a fim de que "ratos" não a invadam e assim eu o farei, mas só que enquanto eu não defumava a casa ratos aproximaram-se de minha esposa, minha filha e minha mãe causando doenças e eu gostaria de saber o que fazer para espantar estes ratos.

─ Fio a cada vez que suncê vem em terreiro tais ratos são afastados de suncê e todo seu familiador sempre, é claro, de acordo com o merecimento de cada um! Acontece que ao longo dos dias que sucedem as giras no terreiro suncês tudo se emporcalham tanto a si mesmos quanto o casuá em que vivem que daí acabam atraindo novos ratos para perto de suncês.

A entidade amiga deu algumas baforadas em seu cachimbo e continuou:

─ Suncê com problemas no local de trabalho e sua companheira com os vizinhos, absorvendo estas energias e espalhando-as em cada canto de cada cômodo do seu lar: e tome reclamação contra a vida, contra o chefe, contra os colegas de trabalho, contra as contas a pagar!

Pai Josias continuou:

─ Aí surgem as desavenças com a esposa e suncês acabam, quase sempre, por discutir na frente da criança pela roupa amarrotada, pelo café amargo, pelo baixo salário, por que o vizinho não respondeu ao seu "Bom dia"!

─ Compreenda zifio que por conta da falta de defumação e de outras medidas energeticamente profiláticas e umbandistas como o hábito de cruzar semanalmente a casa, pode-se dizer que onde suncês moram não está devidamente asseado, mas só que suncês acabam por piorar ainda mais a situação com todo este lixo mental, emocional, psicológico e energético.

─ Defume seu casuá, mude seu padrão vibratório e consciencial que suncê, nas forças de Deus-Nosso-Pai, verá mudanças prodigiosas em sua vida. Pode deixar que dos ratos nós, segundo o merecimento de cada um, cuidamos. Preocupem-se apenas em manter as vossas duas casas higienizadas: seu casuá, onde mora suncê e os seus familiares e seu vaso corporal, onde reside vosso espírito.

─ Sei que você crê na onipotência de Deus, só não descreia jamais que grande parte do poder Dele está nas coisas simples: Gandhi venceu a intolerância por meio de simples jejuns, Moisés venceu faraó com um simples cajado e Jesus venceu o mundo com a Lei de Amor. Viver na carne não é simples, amar também não, mas creia na simplicidade das coisas de Deus, da Umbanda e dos fundamentos a ela pertinentes que suncê verá os instrumentos de que se servem as trevas para semearem discórdias, desgraças e maldades serem desativados diante de si.

─ Creia meu fio e chame as bênçãos de Deus pra junto de suncê, acredite na simplicidade das coisas de Deus e o mal, assim, da sua vida se desarmará.

─ Uma flor pode desarmar o mais bélico dos exércitos, o perdão pode desarmar o ódio mais feroz, pensamentos vibrados em paz e amor podem desarmar a mais potente magia negra, da mesma forma que uma "mera" defumação desarma a casa, a família e a vida de suncês de toda a sujeira astral com que vocês a municiam por conta das reclamações e impropérios resultantes das vicissitudes de vossas existências corpóreas; vicissitudes estas que, na realidade, são instrumentos que podem guiá-los a angelitude se corretamente manejados, mas que suncês ainda, infelizmente, não conseguem percebê-los enquanto tal.

E a entidade, que tinha diante de si um consulente aos prantos, aguardou que César serenasse as emoções. Instantes após pediu um abraço apertado e, posteriormente, disse-lhe olhando fixamente nos olhos:

─ Nêgo acredita em Deus meu filho, mas não descrê de suncê! Creia mais na simplicidade das coisas de Deus e vá na força e na luz de Zambi-Nosso-Pai!

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