Tempo de festejar Xangô

Junho é um mês de alegria. As tradicionais festas juninas, com comidas típicas, bandeirinhas coloridas demarcando espaços de dança, nos quais se apresentam grupos, que formam as quadrilhas e homenageiam o universo rural com muita música. Não faltam canjica, tapioca, quentão, amendoim, pipoca batata-doce assada na brasa e muitas outras iguarias. As fogueiras são uma atração à parte, e ao redor delas se desenrolam as grandes manifestações culturais. Em muitos estados do Nordeste, as festas de Santo Antônio, São João e São Pedro são o que há de mais popular.

Mas todos os dias do ano são santos. De acordo com o calendário gregoriano, cada dia é motivo para homenagear um ser especial, cujos feitos terrenos o elevaram a essa condição de santo. Na Umbanda não é muito diferente. Cada dia da semana é dedicado a um ou mais orixá, sem contar com datas especiais destinadas a cada um. Portanto, todos os dias são sagrados na Umbanda e também no Candomblé.

Os três grandes personagens das festas religiosas populares: Santo Antônio, São João e São Pedro, pelo sincretismo religioso, os três estão associados a Xangô, o orixá da justiça. Vale uma ressalva, em relação a Santo Antônio, padroeiro dos Caminheiros. Ele é associado a outras entidades na Umbanda e em outros tradicionais cultos afrorreligiosos, o que merece um texto à parte.

Se Santo Antônio, São João e São Pedro são Xangô, o que comemoramos em 30 de setembro? Xangô também. “Como assim?”, você pode indagar. A explicação está em lições anteriores, quando aprendemos que as irradiações dos orixás se dividem em sete linhas e estão associadas a elementos diversos na natureza. De forma simplificada, esse entendimento pode ser traduzido em “qualidade”, ou seja, há diferentes chefes das sete linhas de Xangô. Em comum, todos têm com o elemento a pedra, o fogo, a Justiça.

Assim, em junho, comemoramos nas seguintes datas:

Dia 13 – Santo Antônio ou Xangô Abomi — É a legião de caboclos que trabalham nas montanhas de pedra ou cadeias de montanhas interligadas, serras, etc. Sua força é muito solicitada nas horas de aflição, quando se perde algo, além de proteger o casamento. Quando se pede a proteção para o casamento, assenta-se uma vela azul claro oferecida a Iemanjá.

Dia 24 — São João Batista ou Xangô Agodô — Legião dos caboclos que trabalham nas pedras e que estão dentro dos rios, nos seixos rolados, nas pedras iniciática e batismal. Aceita obrigações nas pedras dos rios, sendo utilizados os mesmos materiais que os anteriores, normalmente utilizando pano branco com bordas brancas bem largas.

Dia 29 — São Pedro ou Xangô Alufam — Esta legião trabalha nas pedras dos rios, dos mares, cachoeiras, lagos e fontes. Xangô Alufam é considerado o protetor dos pescadores e responsável pela diretriz dos desencarnados, pois possuem as chaves do céu. Vibra nas cores branca e marrom, simbolizando a água e a pedra. Aceita obrigações em todas as pedras que estejam em contato com a água.

No dia 29, também é dedicado a São Paulo ou Xangô Alafim —Esta legião trabalha nas pedras solitárias dos caminhos ou das matas que servem de assento a viajantes ou caçadores cansados, como os convidando à meditação que leva a sabedoria na busca de soluções para os impasses da vida. Suas vibrações auxiliam oradores, intelectuais, juristas e juízes, pois defendem integralmente a pureza moral. Aceitam obrigações nas pedras solitárias e suas cores vibratórias são o marrom e branco, o material utilizado e semelhante ao de Xangô Kaô.

Em 30 de setembro, quando os Caminheiros e muitas outras casas de Umbanda rendem homenagens a Xangô, estamos festejando Xangô Kaô ou, pelo sincretismo, São Jerônimo. Ele também é conhecido como Xangô Velho. Vibra na cor marrom escuro, simbolizando a pedra antiga na qual foi assentada a justiça, evidenciando a sabedoria que só o tempo e a experiência coroam. Ele atua na pedreira sobre a qual está assentado o campo florido que recebe as obrigações de Oxalá. O material normalmente usado em suas obrigações consta de pano marrom com bordas brancas, vela marrom, charutos, cerveja preta, lírios ou rosas brancas.

As homenagens a Xangô não se encerram em junho e em 30 de setembro. Elas  se estendem por mais dois dias em julho e um de agosto. Em 25 do próximo mês é consagrado a Xangô Djacutá (São Tiago). Trata-se da legião mais conhecida do Deus do Trovão e Senhor dos Raios, Coriscos e Meteoritos. Djacutá significa pedra. Xangô Djacutá comanda os caboclos que trabalham com na pedra do raio, simbolizando a justiça que vem do alto, a justiça cósmica ou a Justiça Divina, do Deus criador. Sua força é invocada nas horas de aflição por injustiças provocadas por outras pessoas. Aceita oferendas semelhantes às dada a Xangô Kaô, incluindo uma vela branca oferecida ao Orixá Tempo.

Em 26 de julho, saudamos Xangô Aganjú, associado a São Joaquim, avô de Jesus. Esta legião trabalha  na pedra da cachoeira, simbolizando a harmonia entre o amor e a justiça ou entre as esposas Oxum e o marido Xangô, ou ainda a harmonia conjugal, que abençoa a família. Aceita obrigações na pedra da cachoeira, o material utilizado é semelhante aos anteriores acrescentando-se a presença da vela azul escuro ou amarela para Oxum.

Por último, festejamos, em 28 de agosto, Xangô Abomi, que equivale a Santo Agostinho. Essa é uma legião de caboclos que trabalham nas montanhas de pedra ou cadeias de montanhas interligadas, serras, etc. Sua força é muito solicitada nas horas de aflição, quando se perde algo, além de proteger o casamento. Quando se pede a proteção para o casamento, assenta-se uma vela azul claro oferecida a Iemanjá, além do material utilizado para as obrigações anteriores.

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