Respeito, a gente constrói


O início dessa semana foi emblemático para a luta dos umbandistas e candomblecistas, que, ao longo de séculos, são vítimas do preconceito, da discriminação, da intolerância por grande parte dos adeptos das religiões judaico-cristãs. Embora o Estado brasileiro seja laico, por força de preceito constitucional, o governo federal decidiu encarar de frente a questão da intolerância religiosa, que tem vitimado candomblecistas e umbandistas na maioria das unidades da Federação. Formalizou a Comissão de Combate à Intolerância Religiosa e admitiu que a situação atingiu níveis insuportáveis.

Centenas de afrorreligiosos participaram de grandiosas manifestações nos mais diversos estados, entre eles São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Paraíba. Eles expressaram a insatisfação com a perseguição organizada por grupos que se insurgem contra o reconhecimento da diversidade e da pluralidade religiosa do Brasil.


Todas as cerimônias foram grandiosas e de um significado profundo, a começar pela demonstração de destemor dos umbandistas e candomblecistas de se exporem nas ruas diante de toda a sociedade e deixarem claro que têm orgulho da religião que professam. Mostraram também que o país mudou. As forças de segurança, diferentemente do passado, não perseguem os seguidores das práticas afro-brasileiras, mas garantem a integridade deles, pelo menos em atos apoiados pelos integrantes do primeiro escalão do poder.

A repercussão de todos esses acontecimentos foi ínfima entre os umbandistas e candomblecistas. A maioria não se deu conta ainda da importância deles para a preservação dos terreiros, para a garantia da liberdade de prática religiosa e para a conquista do tão desejado respeito. Parece um sofisma, pois como mensurar uma eventual indiferença dos afrorreligiosos aos eventos que celebraram o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa?

Hoje, com o avanço da tecnologia e os recursos disponíveis na internet é possível  verificar os índices de audiência do noticiário. Por meio desses sistemas se avalia  quantas vezes uma reportagem foi lida. E, aí, constata-se que a maioria delas atraiu pouca ou quase nenhuma atenção.

Lamentamos as agressões, choramos diante das incompreensões e clamamos aos Orixás por ajuda para superarmos os percalços impostos pelos que se opõem à religiosidade afro-brasileira. Mas não somamos em momentos tão importantes. Não conseguimos expressar a nossa alegria ou descontentamento com os episódios. Deixamos essa tarefa para alguns que nos representam, mas não fazemos coro à luta deles. Pior: não nos inteiramos dos fatos políticos que propiciaram as conquistas, ainda que pequenas, como o engajamento das autoridades na luta contra a intolerância religiosa, da qual somos as primeiras vítimas.

Essa apatia nos enfraquece. Ela reduz o nosso discurso, que deve ser afiado, para abater os sofismas que amparam a verborragia das forças de oposição à prática religiosa. Precisamos nos preencher de argumentos para esvaziar o discurso deles e mostrar que a nossa fé tem fundamento, está amparada na nossa origem e nos ensinamentos dos nossos antepassados, merecedores da mais sincera veneração, e é tão robusta quanto às forças da natureza, das quais emanam as energias dos Orixás. Se queremos paz e respeito, é fundamental que saibamos construí-los.

Está na hora de romper com os estereótipos de que os povos e as comunidades de terreiro são ignorantes, sem formação e incapazes de levar a termo o bom debate. Para isso, são a apropriação do conhecimento, a unidade e a participação.

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