O negro no cinema brasileiro



Museu Nacional dos Correios, de 20 de novembro a 2 de dezembro de 2012. Entrada franca

Mostra percorre 50 anos de história para mostrar as mudanças da imagem da população afrodescendente no cinema do Brasil

*14 filmes assinados por alguns dos maiores realizadores brasileiros
*Descanso e informação, com sessões no intervalo do almoço e no início da noite

No Dia da Consciência Negra, o Museu Nacional dos Correios abre uma mostra que promete revelar como a população afrodescendente tem sido retratada pelo cinema nacional ao longo dos últimos 50 anos. É O negro no cinema brasileiro, que acontece de 20 de novembro a 02 de dezembro de 2012, sob a curadoria do cineasta, professor e crítico de cinema Sérgio Moriconi. Ao longo de duas semanas, serão promovidas 24 sessões, em horários alternativos. De terça a sexta-feira, as exibições acontecem às 12h30 e às 19h, visando oferecer uma oportunidade de unir descanso e informação para quem trabalha nas proximidades do Setor Comercial Sul (onde está o Museu Nacional dos Correios) e quer fugir do trânsito pesado. Aos sábados e domingos, sessões às 15h e às 17h. A entrada é franca. A mostra tem o patrocínio exclusivo dos CORREIOS.

No sábado, dia 24, logo após a sessão das 17h, palestra com o professor da Universidade de Brasília Rafael Sanzio dos Anjos, autor de textos como Dinâmica Territorial: Cartografia-Modelagem-Monitoramento, 2007, Quilombos: Geografia Africana - Cartografia Ética - Territórios Tradicionais, 2009 e Territorialidade Quilombola: Fotos & Mapas, 2011".

O negro no cinema brasileiro pretende estimular a presença de jovens, estudantes, universitários e de ensino médio, cinéfilos, pessoas que trabalham e circulam nas proximidades do Museu Nacional dos Correios e público em geral para uma reflexão sobre a história e da importância da presença dos afrodescendentes na constituição cultural, econômica e socioeconômica do país, além de permitir um debate sobre a situação atual.

A mostra

O NEGRO NO CINEMA BRASILEIRO vai exibir títulos que percorrem a história do cinema no Brasil. A começar por Amei um bicheiro, de 1952, policial inspirado nos filmes noir, sobre o jogo do bicho e que contém a cena que o lendário ator Grande Otelo considerava a melhor de toda sua carreira: a morte de seu personagem, Passarinho. O passeio continua com o clássico Orfeu Negro, 1959, de Marcel Camus, que venceu em Cannes e recebeu o Globo de Ouro ao transpor para o carnaval carioca da década de 50 o mito de Orfeu e Eurídice.

Um dos mais importantes filmes do cinema brasileiro, Assalto ao Trem Pagador, de 1962, dirigido por Roberto Farias, tinha como protagonistas os atores Eliezer Gomes, Grande Otelo, Ruth de Souza e Luíza Maranhão. Na tela, a encenação de um fato real: o assalto ao trem da Central do Brasil, em 1960. Um título emblemático, A Rainha Diaba, 1974, de Antonio Carlos Fontoura, afirmou o imenso talento do ator Milton Gonçalves. Na pele de um homossexual que dominava o tráfico de drogas na Lapa, no Rio de Janeiro, Milton arrebatou o Brasil. O filme foi premiado no Festival de Brasília.

Em 1998, o cineasta Renato Barbieri e o pesquisador Victor Leonardi percorreram o caminho trilhado pelos africanos feitos escravos no Brasil e conceberam o premiado Atlântico Negro – na rota dos Orixás, que mostra as afinidades existentes entre comunidades separadas pelo Oceano Atlântico.

Mas foi nos anos 2000 que se assistiu a um boom da presença do negro no cinema brasileiro. Títulos como Uma onda no ar, de HelvécioRatton, e Madame Satã, de Karim Aïnouz, de 2002, apresentavam diferentes aspectos da realidade social da população afrodescendente no País. Com seu filme sobre a criação de uma Rádio Comunitária numa favela de Belo Horizonte e da repressão policial que seus criadores vieram a sofrer, Ratton mostrou pessoas que tentam romper a rotina de tráfico e violência. Karim Aïnouz em seu longa de estreia, Madame Satã, magnificamente protagonizado por Lázaro Ramos, retrata a vida do malandro homossexual que comandava a vida boêmia na Lapa. O filme recebeu prêmios no Brasil, em Havana, Cartagena e Buenos Aires, dentre outros.

Quase dois irmãos, 2004, de Lúcia Murat, revela o encontro de ex-companheiros de infância que seguiram rumos distintos – um se tornou senador da República e outro chefe do tráfico de drogas numa comunidade carioca. No elenco, Flávio Buraqui e AntonioPompêo, dentre outros. Do mesmo ano de 2004, Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo, traz um elenco estelar: Ruth de Souza, Léa Garcia, Milton Gonçalves, Taís Araújo, Thalma de Freitas, Rocco Pitanga. Em cena, a história de duas irmãs que após muitos anos se encontram numa pequena cidade mineira onde ainda vivem os fantasmas da escravidão e do racismo.

Longe da ficção e apresentando um artista que está entre os mais importantes da música brasileira, o documentário Paulinho da viola – meu tempo é hoje, 2004, revela a vida simples do artista que é o mais sofisticado do samba. Também na linguagem do documentário e concentrado numa personagem negra, Estamira, 2005, de Marcos Prado, arrebata as plateias por onde passa. Estamira Gomes de Sousa foi uma catadora de lixo do aterro Jardim Gramacho, do Rio de Janeiro que sofria de doença mental. Seu discurso filosófico misturava momentos de extrema lucidez e rasgos de loucura. Foi premiado no Rio de Janeiro, em São Paulo , Marseille, Viena, Havana e transformou-se em espetáculo teatral.

Pouco visto no circuito comercial, Besouro, 2005, de João Daniel Tikhomiroff, recupera para os dias atuais a figura lendária de Besouro Mangangá, que viveu no Recôncavo Baiano, no início do século XX, e é considerado o maior capoeirista de todos os tempos. A Bahia também é palco da comédia musical Ó Paí, Ó, de 2007, direção de Monique Gardenberg, que leva para as telas o clima e o frescor do carnaval baiano, num casarão em pleno Pelourinho de Salvador. E fechando o passeio pelo cinema nacional, o filme mais recente da mostra, A falta que me faz, documentário de 2009, assinado por Marília Rocha, vai à Cordilheira do Espinhaço, em Minas Gerais , para mostrar o cotidiano de quatro meninas. O filme nasceu de uma pesquisa sobre as coletoras de flores de Diamantina.

Uma seleção de filmes que prova que – embora ainda marcado por temas ligados a uma realidade sócio-cultural de exclusão – o cinema contemporâneo tem tentado fugir do arquétipo e construir uma imagem afirmativa do negro e de sua cultura.

Palestra

No sábado, dia 24 de novembro, haverá palestra do professor Rafael Sanzio dos Anjos, graduado em Geografia pela Universidade Federal da Bahia (1982), com Especialização na Universidade Estadual Paulista (Rio Claro 1985), Mestrado em Planejamento Urbano pela FAU da Universidade de Brasília (1990), Doutorado em Informações Espaciais no Depto. de Engenharia de Transportes pela Universidade de São Paulo (1995) e Pós-Doutoramento em Cartografia Étnica no Museu Real da África Central em Tervuren - Bélgica (2007-2008).

Atualmente, Rafael Sanzio dos Anjos atua como Professor Associado III do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília e Diretor do Centro de Cartografia Aplicada e Informação Geográfica (CIGA), onde é Coordenador dos Projetos Geografia Afro-Brasileira: Educação e Planejamento do Território (Projeto GEOAFRO) e Instrumentação Geográfica, Educação Espacial e Dinâmica Territorial.

Tem experiência no uso e aplicação das tecnologias geográficas aplicadas ao planejamento, monitoramento e gestão territorial, particularmente do Distrito Federal, RIDE e também dos mapeamentos e laudos dos territórios tradicionais africanos no Brasil. Outras linhas de trabalho e pesquisa estão associadas à produção de materiais cartográficos didáticos e instrucionais para os diferentes níveis de ensino e educação geográfica. Coordena o Grupo de Pesquisa consolidado GEOCARTE/CNPQ e é membro do Comitê Brasileiro do Projeto Rota do Escravo - UNESCO, onde desenvolve a Pesquisa Cartografia da Diáspora África - América - Brasil e participa do AfricanScientific Institute (ASI).

Suas publicações mais recente são Dinâmica Territorial: Cartografia – Modelagem -Monitoramento, 2007, Cartografia & Educação - Vol I,2008, Quilombos: Geografia Africana - Cartografia Ética - Territórios Tradicionais, 2009, Territorialidade Quilombola: Fotos & Mapas, 2011,Cartografia & Geografia Referências para Educação, 2012 e o mapa didático-educacional Geopolítica da Diáspora África América Brasil. Séculos 15, 16, 17, 18 e 19: Cartografia para Educação, 2012.

Um pouco de história

O escravo, o sambista, o malandro, a mulata. Foi assim que durante muito tempo o negro foi representado no cinema brasileiro. Figuras ligadas a arquétipos do candomblé e da umbanda serviam de contornos para a criação de personagens que somente reafirmavam aspectos caricaturais da população afrodescendente. Com o passar dos anos e a influência do chamado Cinema Negro no Brasil, foram surgindo personagens reais individualizados, vividos por um grupo de atores que estão entre os melhores do cinema, do teatro e da televisão no Brasil. A mostra O NEGRO NO CINEMA BRASILEIRO promete contar um pouco desta história, percorrendo mais de 50 anos de cinema.

O cinema estabelece com o interlocutor uma relação centrada no imaginário, no desejo e na construção simbólica de cada um. Pensar no cinema como veículo de reprodução ideológica – ou espaço de construção simbólica – ajuda a compreender porque a imagem do negro no cinema é, muitas vezes, apresentada de maneira superficial, estereotipada, pautada na depreciação. Nos tempos das famosas chanchadas, tudo servia de motor para a piada, inclusive aspectos sociais e étnicos. A população negra não saiu impune destes tempos. Mas o gênero revelou atores de talento insuperável, como Grande Otelo.

O Cinema Novo inaugura novos tempos, com a representação mais politizada da população brasileira. Simultaneamente, surgem os filmes históricos, que revelam atos de rebelião dos negros durante a escravidão. A partir da década de 70, surgiram obras importantes sobre o negro e sua cultura, como Compasso de Espera (1969), de Antunes Filho, Amuleto de Ogum (1974) e A Tenda dos Milagres (1977), de Nelson Pereira dos Santos, e Xica da Silva (1976), de Cacá Diegues. Filmes que se tornaram sucesso de bilheteria, os títulos projetaram atores negros. E foi assim, com o avanço da produção cinematográfica, que o negro foi tomando o centro da cena. Atores como Milton Gonçalves, Neusa Borges, Zezé Motta passaram a discutir seus próprios personagens, recusando aqueles que consideravam estereotipados.

Programação

TERÇA-FEIRA, 20.11
12h30 – Ó, pai, ó – 96’
19h – Besouro – 94’

QUARTA-FEIRA, 21.11
12h30 – Atlântico Negro – 54’
19h – Paulinho da Viola – meu tempo é hoje – 83’

QUINTA-FEIRA, 22.11
12h30 – Amei um Bicheiro – 90’
19h – Madame Satã – 99’

SEXTA-FEIRA, 23.11
12h30 – Quase dois irmãos - 104’
19h – Ó, pai, ó – 96’

SÁBADO, 24.11
15h – A Falta que me faz – 85’
17h – Orfeu Negro – 90’
SESSÃO SEGUIDA DE PALESTRA COM O PROFESSOR RAFAEL SANZIO DOS ANJOS

DOMINGO, 25.11
15h – Atlântico Negro – 54’
17h – Besouro – 94’

TERÇA-FEIRA, 27.11
12h30 – Filhas do Vento – 85’
19h – Paulinho da Viola - meu tempo é hoje – 83’

QUARTA-FEIRA , 28.11
12h30 – Assalto ao Trem Pagador – 103’
19h – Quase Dois Irmãos – 104’

QUINTA-FEIRA , 29.11
12h30 – Uma Onda no ar – 92’
19h – Rainha Diaba – 99’

SEXTA-FEIRA , 30.11
12h30 – Madame Satã – 99’
19h – Uma Onda no ar – 92’

SÁBADO, 1º.12
15h – Rainha Diaba – 99’
17h – Amei um Bicheiro – 90’

DOMINGO, 2.12
15h – Filhas do Vento – 85’
17h – Estamira – 121’
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O NEGRO NO CINEMA BRASILEIRO
Local: Museu Nacional dos Correios (Setor Comercial Sul, Qd. 4, Bl A, nº 256)
Data: 20 de novembro a 2 de dezembro de 2012
Horário: terça a sexta às 12h30 e 19h; sábados, domingos e feriados às 15 e 17h
Entrada Franca

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