Intolerância religiosa e eleições

Por Rosane Garcia

A campanha das eleições municipais expôs em tons vibrantes o grande conflito religioso existente hoje no país. As igrejas tornaram-se templos partidários. O púlpito serve de palanque aos candidatos. Os fiéis formam claques em defesa desse ou daquele postulante a cargo eletivo, sob a batuta impiedosa dos seus pastores. As expressões de fé estão medindo forças entre si. Ingressaram na batalha pelo voto sem qualquer pudor.

Quem vencerá? Os adeptos das igrejas neopentecostais (as monetaristas) ou aqueles que se pautam pelos dogmas de Roma?

Até então, a intolerância religiosa dos neopentecostais resultava em ataques francos aos seguidores das religiões de matriz africana – a Umbanda e o Candomblé —, e, com menor grau de virulência, atingia os católicos, os espíritas e outras que, por caminhos assemelhados, disputavam o mesmo público.

Com o início da campanha eleitoral, os católicos, que vêm perdendo fiéis para os evangélicos, sentiram o impacto da agressividade dos neopentecostais, capitaneados pela Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd).

No campo político, a igreja monetarista está bem à frente, com bancada no Congresso, espaço no Executivo federal, prefeitos, vereadores e deputados estaduais em quase todos os municípios e unidades da Federação, além de deter fatia significativa do setor de comunicação, com domínio sobre emissoras de rádio e televisão, jornais e revistas.

No embate legislativo, os iurdianos formam uma coluna de força respeitada pelos mandatários e, com freqüência, interferem nas políticas públicas a favor dos seus protegidos.

Os embates entre a Igreja Católica e o Estado, nos momentos mais cruciais da República, jamais levaram a resultados próximos aos alcançados hoje pela a igreja monetarista. No máximo, os católicos impunham constrangimentos ao regime vigente, ao expor à opinião pública nacional e estrangeira os desmandos e a truculência do governo.

Hoje, diferentemente do passado, a maioria dos setores do Estado se curva aos interesses dos neopentecostais, que ganham musculatura hercúlea quando, sem muito esforço, constroem alianças com os reacionários de plantão dentro do Congresso Nacional. Infiltrados na organicidade da estrutura do Poder Público reforçam seus instintos de vândalos por meio da impunidade.

Em escala assustadora, buscam a hegemonia da fé com ataques frontais aos ditames constitucionais, que reconhecem a pluralidade de crença, culto e  religião no país. Comandam legendas partidárias ostensivamente e trazem para campo aberto e de forma desnudada o projeto maior de mando político da nação.

A insurreição católica na maior capital brasileira é apenas um alerta às forças do Estado que, até agora, se mantiveram inertes ou lenientes diante do comportamento inescrupuloso das falanges de bárbaros da igreja monetarista. Elas atuam no sentido de asfixiar as crenças de menor porte, tratadas como segmentos invisíveis no cenário da diversidade religiosa pelas instituições governamentais, responsáveis por salvaguardarem a Constituição Cidadã.

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