Sensacionalismo frustra debate sobre a Umbanda

A falta de leitura esvazia o discurso e deforma  a realidade


Boa parte das redes sociais, com foco nas religiões de matriz africana, disseminou pela internet, no último fim de semana, a edição do programa Super Pop, da Rede TV, levado ao ar na semana passada, que fez um debate sobre as práticas da Umbanda e do Candomblé pelo país. Participaram da discussão um bispo evangélico e uma evangélica, uma católica, dois dirigentes de terreiros de Umbanda e o presidente da Federação de Umbanda e Cultos Afro-brasileiros, Cássio Ribeiro. O grande cenário do programa foi a cidade maranhense de Codó, considerada a “terra da magia”, “terra da macumba”, por reunir 300 terreiros de diferentes matizes dos cultos afro-brasileiros, com destaque para pai-de-santo Nilson Nonato de Souza, 93 anos, conhecido como Bita do Barão, e famoso por atender políticos das regiões Norte e Nordeste. Ele comanda um terreiro, onde a prática é o Terecô ─ denominação de uma das religiões afro-brasileiras da cidade de Codó no Maranhão, derivada do Tambor-de-mina semelhante a Umbanda.

Os evangélicos atacaram a Umbanda e Candomblé por meio das oferendas aos orixás.Os dois participantes se disseram egressos de religiões de matriz africana e, hoje, condenam os despachos em que são oferecidas bebidas, comidas, charutos ou cigarros. Argumentaram que a prática era um estímulo ao vício. Segundo eles, tais práticas eram bruxarias, feitiços e outros adjetivos que revelaram o total desconhecimento de ambos sobre os fundamentos das religiões de matriz africana. No entanto, chamou à atenção a certeza de ambos da existência dos espíritos, que tentam eliminar em seus cultos. Mas, para eles, todos os espíritos estão associados ao demônio. Ou seja, não existe, na concepção exposta pelos evangélicos, a possibilidade de existir espíritos do bem. Rejeitam a dualidade presente em todos os elementos do universo ─ o positivo e o negativo ─ que garantem o equilíbrio.

Entre participantes estava também outro pastor, segundo ele, ex-praticante do satanismo, filosofia que adora Satã (também conhecido como demônio ou diabo) e, por muitos, confundido com Exú, entidade da Umbanda e do Candomblé. “O satanismo está entre nós”, afirmou o pastor Carlos Riba, que garantiu que “o satanismo pode destruir a vida de quem quiser”.

A tentativa da Rede TV de realizar um debate sobre as religiões de matriz africana ficou longe do que umbandistas e candomblecistas poderiam esperar. Provavelmente pelo formato do programa Super Pop, o anúncio da discussão foi cercado de sensacionalismo e o direcionamento desconsiderou os verdadeiros fundamentos de ambas as práticas, que se sustentam nos pilares da fé, do amor e da caridade. Ignorou completamente a possibilidade de comunicação com a espiritualidade fora das mesas kardecistas.

Diante da revelação do pastor, ex-seguidor do satanismo, de que a prática implicava violação de túmulos e até sacrifícios humanos, sobretudo de crianças, um representante da Umbanda perdeu o controle emocional e defendeu a pena de morte para os autores desse ato. Na verdade, a Umbanda, bem como outras religiões de matriz africana, é radicalmente contra a execução de qualquer pessoa por mais perverso que seja o seu gesto. A vida vem de Deus e somente Ele pode tirá-la. Para os umbandistas a vida é um bem supremo, uma bênção e uma oportunidade de o ser humano buscar a evolução na escala espiritual. Interromper essa trajetória significa regressão e acúmulo maior de dívida cármica.

As distorções expostas no programa mostraram a importância de aprofundamento do estudo sobre a opção religiosa de cada um. Não importa a religião que a pessoa queira professar, o importante é buscar o conhecimento sobre a prática escolhida, de forma a capacitar-se para o debate e para a defesa, sem sectarismo, da sua expressão de fé.

Quando de sua passagem pelo plano terreno, Jesus ou Oxalá ensinou que muitos são os caminhos para se alcançar Deus. Assim, todas as religiões voltadas à cultura de paz, à valorização da vida e à construção de sociedades harmônicas merecem respeito.

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