Tragédia: Intolerância provoca morte


Por Átila Nunes Neto

No último dia 11 de novembro, um homem morreu e outro foi baleado depois de uma discussão por causa de religião na madrugada, em Sapucaia do Sul (RS). Segundo a Polícia Civil, três membros da igreja Deus é Amor estavam em um local conhecido como Morro de Sapucaia, fazendo orações, quando viram um grupo de cinco umbandistas acendendo velas. Dois evangélicos foram em direção ao grupo de Umbanda para, segundo a polícia, repreendê-los. Houve forte discussão, e um dos membros da igreja acabou sendo esfaqueado no pescoço e morreu no local. Um outro foi esfaqueado no abdômen, virilha e na perna. Ele foi submetido a uma cirurgia e está internado em um hospital da região. O terceiro membro da Deus é Amor ficou à distância, vendo a confusão, de acordo com a polícia.

Essa notícia é trágica, sob todos os pontos de vista. É trágica por ter custado a vida de um ser humano. É trágica por revelar absurda intolerância religiosa. É trágica por termos chegado ao ponto do preconceito religioso no Brasil, acabar em conflito físico. Não conheço detalhes do episódio, mas o desfecho é profundamente lamentável. Um grupo da Igreja Deus é Amor fazia orações próximo a um grupo de umbandistas que acendiam velas. Alguns membros daquela Igreja aproximam-se dos umbandistas e os repreendem (por acenderem velas). O resultado foi uma discussão que resultou em brigas e morte.

Lamentável. Mil vezes lamentável.

Tanto eu, quanto meu pai, o deputado Átila Nunes, vimos alertando para a possibilidade de uma tragédia resultante da intolerância religiosa no Brasil. Pois bem, aí está. A omissão das autoridades permitiu um acontecimento trágico, absolutamente desnecessário.

INÉRCIA GOVERNAMENTAL

Se o governo tivesse, há 30 anos, quando começaram as demonstrações de preconceito religioso nas emissoras de rádio e TV, agido com severidade, impedindo o proselitismo religioso carregado de ódio contra as demais religiões, não teríamos chegado a esse ponto.

Pelo contrário. Em troca de votos no Congresso Nacional, o governo liberou inúmeras concessões de rádio e TV, onde diariamente – há décadas – igrejas eletrônicas destilam ódio contra espíritas, umbandistas, candomblecistas e até católicos (como esquecer os chutes na imagem de Nossa Senhora da Aparecida por um desses “bispos”?)

DENÚNCIAS

Para entender melhor a Igreja Deus é Amor, mais uma dessas igrejas neopentecostais criadas recentemente, há poucos meses, freqüentou as páginas dos jornais numa denúncia da FUNAI.

Segundo denúncia da índia Kaiowá, da Ação de Jovens Indígenas de Dourados, nos últimos anos o numero de igrejas tem crescido muito dentro da aldeia de Dourados, tanto na Jaguapiru e na Bororó

Muitos indígenas são atraídos pela igreja pentecostal Deus é Amor. De acordo com dados levantados em setembro de 2009 pela AJI (Ação de jovens indígenas de Dourados) GAPK (Grupo de apoio aos povos Guarani e Aruak), os indígenas têm que passar a frequentar a igreja e andar de acordo com suas doutrinas.

A pentecostal Deus é Amor tem pregado doutrinas muito fortes dentro da aldeia onde quem mais sofre com isso são os adolescentes. Segundo ela, os adolescentes indígenas que frequentam a igreja, deve andar de acordo com as regras. Os jovens têm que raspar a cabeça, usar roupa social. As jovens índias, saia abaixo do joelho, não podendo cortar o cabelo

Na aldeia Bororó, um menino de 14 anos, membro dessa igreja, parou de freqüentá-la porque todos seus amigos tinham liberdade de sair, de jogar futebol, de ouvir música, assistir televisão, o que era proibido pela Igreja Deus é Amor. Revoltado, o menino saiu da igreja. Diz ele que não quer mais ser membro, pois era impedido de tudo. A índia Kaiowá denúncia ainda que “os cultos são todos os dias, é um barulho enorme quando oram, cantam”

Para se conhecer um pouco mais dos usos e costumes da Igreja Deus é Amor, segue uma relação. Destaque-se que essas normas são constantemente fiscalizadas pelos pastores, estando impressas no Regulamento Interno daquela igreja. Dentre as principais proibições direcionadas a todos os membros estão:

• ter e ver TV; não é permitido assistir a nenhum tipo de programação, pois a TV é considerada a imagem da “Besta”.

• escutar programas não evangélicos no rádio; (são orientados e estimulados a ouvir somente a programação da igreja "A Voz da Libertação", rádios de conteúdo musical evangélico e de noticias também são permitidos).

• praticar qualquer tipo de esportes (os adolescentes são estimulados a não participarem da aula de Educação Física nas escolas, sendo sugeridos trabalhos alternativos para obtenção de nota na matéria);

• exercer qualquer profissão que exija o uso de armas de fogo (segurança, polícia militar, forças armadas).

• As mulheres na Deus é Amor são terminantemente proibidas de:usarem calças compridas, alegam ser roupa de homem (podendo usar somente saias ou vestidos, abaixo dos joelhos e sem aberturas); usarem qualquer tipo de maquiagem e usar qualquer adorno (com exceção da aliança de casamento ou noivado e relógio); cortar os seus cabelos (sendo proibido aparar até mesmo as pontas); tomar qualquer medicamento anticonceptivo (pílula ou injeção) ou praticar qualquer ato que vise evitar filhos (cirurgia).

• Já os homens não podem: usar bermudas ou shorts (mesmo dentro de casa ou para dormir, devem sempre usar calças compridas, não sendo permitida nem a capri); andar sem camisas ou com as mesmas abertas (não sendo permito regatas ou camisetas sem manga); ter bigodes, costeletas ou cabelos crescidos (sendo considerados vaidade);

A Igreja Deus é Amor é considerada uma das mais sectárias seitas eletrônicas praticadas no Brasil. Talvez seja esta a razão pela qual seus membros deixaram seu lugar de oração para “repreender” umbandistas que acendiam velas. O absurdo não reside na clara e inequívoca intolerância de alguns membros fanatizados daquela Igreja. O absurdo reside que uma demonstração de intolerância tenha tido um desfecho trágico, tantas vezes previsto por mim e pelo meu pai.

CULPADOS

E os culpados? Os culpados são todos os agentes públicos que ao longo desses 30 anos, no Ministério das Comunicações, autorizaram a outorga de concessões públicas para “bispos” e “pastores” que jamais passaram pelos rigores de uma universidade teológica, a exemplo das denominações sérias como as dos metodistas, batistas, presbiterianos, adventistas etc. Incapazes, aliás, de agredirem qualquer outra religião. Essas concessões públicas, nas mãos dessas pessoas, além de servirem para os enriquecerem explorando a boa fé de brasileiros pobres e miseráveis, estimulam o ódio religioso no Brasil. E sob a mais completa passividade das autoridades. Vergonhoso.
Muita paz!

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