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Umbanda e kardecismo: caminhos que se cruzam

A maioria dos seguidores do Espiritismo exclui a Umbanda do rol das práticas espíritas. Eles a respeitam, mas não a considera uma prática do espiritismo. Confundem a Umbanda com seitas que concebem condutas duvidosas e procedimentos gananciosos e enganadores da boa-fé. Os desvios existem em todas as religiões. Ou melhor, em todas as práticas humanas. Errar é uma característica inerente ao ser humano. Não fossem os erros, não seríamos beneficiários da reencarnação — uma complacência divina — para resgatarmos as dívidas contraídas por enganos cometidos em vidas passadas.
O místico sempre esteve presente nas diferentes civilizações, desde o surgimento do homem no planeta. As orientações e práticas são tão diversas quanto os povos existentes. Mas todos, de uma forma ou de outra, acreditam em uma força superior que rege o Universo e a nós, inseridos nele, como protagonistas no plano terreno. As religiões são rituais pelos quais os homens buscam a comunicação com a espiritualidade. Podemos ousar e comparar as religiões a pontes que nos fazem transcender a um mundo misterioso, onde reside a força maior do Universo: Deus. E há muitas formas de nos referirmos a Deus. Para os umbandistas, o filho de Deus é Oxalá. Deus é Zambi. Para outros povos, é reconhecido também como Tupã, Na literatura hebraica, há 72 formas de nomear a Deus. Ou seja, as palavras mudam, mas não a sua essência e significado.

Nada de rótulos
Não podemos rotular as religiões de más ou boas, a partir de uma visão pessoal. Todas, a seu modo, buscam a elevação espiritual e moral das pessoas. Estão empenhadas na construção de sociedades harmônicas, nas quais prevaleçam os ensinamentos de Jesus. Quem assim não procede deverá responder no futuro pelo erro cometido. Mas não podemos nem sequer imaginar que existam simplesmente por existir. Falta-nos capacidade para entender os desígnios divinos. As boas práticas somente são reconhecidas em razão das más. Assim, o que é mau tem a virtude de nos levar a reconhecer o que é bom.
O espiritismo não é diferente. Na essência, as obras de Allan Kardec, o Codificador, nos dão paradigmas que reforçam, por meio da orientação da espiritualidade maior, os ensinamentos de Jesus. Permitem que tenhamos uma compreensão mais profunda das relações e forças que regem o universo. Como espíritos em evolução, a obra de Kardec nos oferece as ferramentas para que possamos avançar como encarnados.
Mas Kardec não coloca seus esclarecimentos acima dos ensinamentos de Jesus. É com base no Novo Testamento que ele nos brinda com O Evangelho Segundo o Espiritismo. Ao contrário, a leitura atenta da sua obra deixa claro que nada ocorre sem o consentimento de Deus. Ora, se acreditamos que nada acontece sem a aquiescência de Deus Todo Poderoso, como podemos nos colocar em posição magistral e julgar se essa ou aquela religião é correta? Quem nos dá autoridade para interferir no livre arbítrio das pessoas? Isso porque não podemos nos esquecer que a liberdade de escolhas também é uma orientação divina.
Uma religião pode ser inadequada em razão da formação pessoal de cada um. Ou seja, temos maior ou menor afinidade como essa ou aquela forma de expressar a fé ou de buscar a comunicação com a espiritualidade e com Deus. Essa opção tem estreita relação com o nosso universo cognitivo, um ambiente que sofre as mais diversas influências e entre elas as que, vistas por outros olhares, podem ser consideradas negativas. Resta-nos, como passageiros do plano material da escala evolutiva, construir o equilíbrio dessas forças e nos fazermos melhores buscando agir o mais próximo possível dos ensinamentos do filho de Deus.
Diante do artigo postado em blog de um seguidor do Espiritismo, não poderíamos nos omitir frente às referências à Umbanda. Hoje, umbandistas e candomblecistas são alvo de uma irracional cruzada neopentecostal, que demoniza quaisquer práticas de espiritismo, sobretudo as realizadas nos terreiros. Camuflado nessa saga de perseguição está o racismo contra os afrodescendentes. Ou seja, uma combinação perversa contra as religiões de matriz africana e seus seguidores, sejam eles negros ou não. Recorrem à violência física e verbal para atacar. Os umbandistas são, aos olhos dos neopentecostais, praticantes do mal. Provavelmente, os argumentos dos neopentecostais não são os mesmos do blog que nega que a Umbanda seja uma prática espírita. Assim, os umbandistas não poderiam ser considerados seguidores do Espiritismo.
Os umbandistas, assim como os espíritas, também estabelecem uma comunicação com a espiritualidade. Melhor: muitos dos espíritos que incorporam nos centros de umbanda, também estão presentes nas mesas kardecistas, com suas mensagens de conforto, de orientação moral e buscam, por meio das suas energias, reequilibrar os irmãos.

Fragilidades
É frágil buscar argumento na roupagem que os umbandistas usam durante a prática religiosa. Um espírita não se caracteriza pela roupa que usa. Mas a opção pelo branco também não o diminui. Veja, na Igreja Católica, os padres têm uma vestimenta especial para as celebrações. Os pastores evangélicos também recorrem a uma roupa de melhor qualidade para se apresentar aos seus fiéis. Mas tanto um quanto o outro não deixam de ser padre ou pastor em razão das suas vestes. Essa condição de líder espiritual está preservada independentemente do figurino.
Na Umbanda, a roupa branca não se confunde com uma senha para um espírito se manifestar. Na mesma linha, está a decoração dos terreiros, com as imagens de santos. Aliás, a presença dessas imagens tem um fundamento histórico para as religiões de matriz africana. São símbolos do sincretismo religioso, caminho de escape para os negros que não podiam reverenciar os orixás nas senzalas. Atribuíam às imagens de santos católicos as virtudes dos orixás venerados.
Os aspectos materiais, embora irrelevantes no debate de fundo, se mostram importantes até mesmo para quem apenas admite a orientação kardecista como prática do Espiritismo. Nesse caso, as sessões ou reuniões não ocorrem em ambientes insalubres. Há mesa, cadeira e até outros adereços para torná-los adequados à comunicação com a espiritualidade. Por que, então, seria diferente na Umbanda? Nos terreiros, também há uma grande preocupação com a higiene do espaço e pessoal, pelo silêncio, de modo a se ter um ambiente adequado à comunicação com a espiritualidade.
Os ataques contra a Umbanda estão contramão dos ensinamentos de Jesus, que pregou a paz entre os homens. Essa agressão gratuita é injustificável principalmente quando uma parcela expressiva dos terreiros de Umbanda seguem à risca a máxima: “daí de graça aquilo que de graça recebeste”. Ou seja, nada é cobrado pelos trabalhos realizados. São casas que, como os Caminheiros de Santo Antônio de Pádua, sobrevivem graças à generosidade dos freqüentadores e da colaboração dos médiuns para sua manutenção.
No caso dos espíritas, esses ataques têm maior gravidade. Significam a negação da doutrina espírita. Mais: favorecem a todos que discriminam e são preconceituosos em relação aos espíritas, independente da vertente que sigam.
Essa divisão que busca dar maior status aos Kardecistas e reduzir os Umbandistas não tem o menor sentido. A espiritualidade está presente em todos esses ambientes e, sem se importar com a forma, reforça as mensagens de esperança, fé, paz, solidariedade, harmonia e amor entre os seres humanos, como alternativas à construção de um mundo melhor e que nos permita evoluir como espíritos encarnados e alcançar outros planos espirituais.

Chico Xavier e Boff
Nos idos dos anos 1960, o Centro Espírita Caminheiros da Verdade, sediado no Rio de Janeiro, hoje com 78 anos de fundação, recebeu a visita do médium Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, cujo centenário de nascimento está sendo comemorado este ano. Ele reconheceu como benéfico os trabalhos de umbanda ali desenvolvidos.
Posteriormente, em 1971, Chico Xavier participou do programa Pinga Fogo, da então TV Tupi, quando defendeu o respeito à Umbanda, como a todas as religiões. Ele reconheceu a Umbanda como um patamar de conexão entre os encarnados e os irmãos recém-desencarnados. Ou seja, aqueles que partiram há três ou quatro séculos e que voltavam para o cumprimento da sua missão cármica. Referia-se Chico Xavier aos negros que foram vítimas das atrocidades no período escravagista. O mais famoso médium brasileiro não teceu críticas à Umbanda. Ao contrário. Qualificou-a como prática legítima, sobretudo quando a palavra de Deus é a fonte de orientação de toda e qualquer atividade.
Mais recentemente, o teólogo e ex-frei Leonardo Boff escreveu um texto em que ressalta as virtudes da Umbanda. Diz ele, no artigo, intitulado O encontro dos Orixás: "Quando atinge grau elevado de complexidade, toda cultura encontra sua expressão artística, literária e espiritual. Mas ao criar uma religião a partir de uma experiência profunda do Mistério do mundo, ela alcança sua maturidade e aponta para valores universais. É o que representa a Umbanda, religião, nascida em Niterói, no Rio de Janeiro, em 1908, bebendo das matrizes da mais genuína brasilidade, feita de europeus, de africanos e de indígenas." (ver texto publicado neste blog em 2 de dezembro de 2009).

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