Divisões equivocadas

Certo dia uma irmã dos Caminheiros de Santo Antônio de Pádua, que conheceu a casa bem no início da obra, em Ceilândia, revelou que, por muitos anos, dedicou-se aos trabalhos de mesa, em uma casa kardecista. Tudo parecia ir bem, até que começaram a surgir restrições. Ela, como vários outros irmãos em desenvolvimento, passou a ser repreendida porque incorporavam pretos velhos, crianças, caboclos e outros espíritos que, supostamente, só podem se manifestar em um terreiro de Umbanda.

As restrições, com o passar das semanas, tornaram-se mais rigorosas. Até que, como os outros, foi proibida de incorporar. Finalmente desistiram, sem entender muito bem o motivo da nova orientação, sustentada na justificativa que um centro kardecista não tinha espaço para pretos velhos, caboclos ou crianças. Cada um buscou caminhos diferentes. A irmã fez incursões em várias casas. “Mas nunca esqueci os Caminheiros, como referência de boa casa”, revelou.

Hoje, ela garante que, depois de tantas andanças, sente-se gratificada por tudo que ocorreu. Sente-se feliz e reconhece a intervenção da Espiritualidade, que sem a impedir de exercitar o livre arbítrio, aos poucos e mansamente, conduziu-a ao reencontro com os Caminheiros.

A história dessa irmã remete-nos a uma reflexão sobre as nossas relações com a Espiritualidade e qual o nosso papel na condição de espíritos encarnados. Fomos privilegiados com mais essa oportunidade para avançarmos na escala evolutiva. Longe de qualquer apologia ao chamado complexo de inferioridade, humildemente precisamos reconhecer que tal privilégio não nos coloca em patamar acima de qualquer irmão do plano espiritual.

Mas há irmãos que ignoram a fragilidade do nosso corpo material e se acham capazes de ditar regras e construir barreiras às diferentes formas de expressão daqueles espíritos que dependem momentaneamente da nossa matéria para transmitir suas mensagens. Esquecem que somos suscetíveis às energias emanadas da espiritualidade em todos os momentos da nossa vida no plano terrestre.

Assim, ousam tentar reproduzir no comando de uma instituição espiritual convenções que, em grande parte estão nas raízes dos conflitos humanos, impõem divisões à sociedade com base em condições sociais e econômicas. Classificamos as pessoas em A, B, C ou D, com base em valores materiais que não têm qualquer expressão diante dos valores espirituais, mas que podem pontuar a favor ou contra cada um de nós, quando não sabemos usar as dádivas colocadas em nossa trajetória no plano terrestre a serviço do nosso crescimento espiritual. Esse crescimento perpassa por atitudes que estejam alinhadas aos ensinamentos de Oxalá, que estabeleceu o maior e o mais importante paradigma: todos somos iguais perante os olhos de Zambi, criador de todas as coisas entre o céu e a terra.

Essas divisões, portanto, não passam de equívocos, entre os muitos que cometemos, que estão na origem dos preconceitos e das discriminações.

Como impor fronteiras rígidas e instransponíveis às manifestações espirituais? Quem nos deu autoridade para definir quais e onde determinadas entidades espirituais podem se manifestar para trazer a sua mensagem? O melhor espaço é um centro kardecista ou umbandista. Quem somos nós para definir isso?

Resistimos muito para reconhecer a nossa incapacidade. Relutamos diante da nossa condição de ignorantes frente a um universo a desvendar para que consigamos, minimamente, avançar na nossa evolução espiritual. Trocando em miúdos: achamos que temos mais realeza que o rei.

Deveríamos ser gratos pela generosidade divina que coloca esses espíritos em contato conosco para nos auxiliar na difícil trajetória terrena. Em lugar de uma postura de humildade, nos arrogamos como superiores das hordas espirituais e queremos lhes impor normas como se elas vivessem na dimensão material e devessem estar submetidas aos nossos caprichos, resquícios da nossa imperfeição a ser corrigida.

Subvertemos valores, perdemos a oportunidade de aprender e reforçarmos o nosso atraso, quando deixamos de converter em atitudes os ensinamentos que nos chegam pelas palavras dos pretos velhos, caboclos e crianças que vêm nos terreiros de Umbanda. Quando somos surdos aos mestres espirituais que chegam ao nosso encontro nas mesas kardecistas. Seríamos mais sábios e felizes se não nos importássemos com espaço material em que esses mensageiros chegam, mas sim com a essência de suas palavras. Esquecemos que Oxalá falou a todos, sem distinção de classe ou casta, nos templos, nas ruas, no deserto, à beira dos rios e do mar.

Portanto, façamos dessa vida a única e a última chance que nos foi dada por Zambi.

Comentários

Anônimo disse…
Temos que ter entre nós a certeza que somos Cristãos. A forma que expressamos a nossa religiosidade tem que ser vista como um mecanismo que nos levará a um lugar comum: a Deus.
Temos que respeitar as diferenças pois isso faz parte do convivio em sociedade.
Temos que respeitar as diversidades religiosas.
Deus é único. E tudo aquilo que Ele gera é reprodutor e multiplicador.
Devemos respeitar seu espirito vivo em cada um de nós que é a nossa própria vida e a vida de todos aqui no plano terrestre.
Então vamos agradecer pela vida que nos foi dada
e agadecer por deus ser tão generoso com cada um de nós. Dentro das suas obras de bondade estão os nossos irmãos do plano espiritual que nos auxiliam e ao mesmo tempo estão sendo auxiliados.
creusa braga disse…
Todos temos nossa importância nesse mundo de espiações. Se nós partirmos do pressuposto de que nas mesas kardecista somente interagimos com mensageiros com alto grau evolutivo, que destino terão aqueles menos evoluídos? Devemos acreditar no Céu e no Inferno? Devemos acreditar em Julgamento Final, onde os bons vão para o Céu e os maus irão penar no Inferno eterno? Se assim for, como fica o princípio da evolução dos seres e dos espítitos? Onde fica a certeza de que o resgate de nossas más escolhas podem ser um grande instrumento da nossa evolução espiritual? A densiddade das energias nas correntes umbandistas são necessárias para desenvolver os diversos níveis evolutivos da imensa população de trabalhadores do astral, com suas diversidades evolutivas.

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