Reação à intolerância religiosa

Apesar da omissão da maioria das autoridades do país, cresce a indignação dos adeptos das religiões de matriz africana com a intolerância religiosa. Umbandistas e candomblecistas clamam por uma ação mais efetiva por parte do poder público para coibir essa expressão de violência dos neopetencostais que contraria a legislação brasileira, fere os princípios dos direitos humanos e tenta internalizar no país os conflitos religiosos, quando os praticantes de qualquer religião deveriam ser verdadeiros artífices de uma cultura de paz.
Há poucos dias. publicamos aqui o lamentável episódio envolvendo ialorixá Adriana de Holanda, psicóloga e servidora da Fundação Oswaldo Cruz. Além de ser perseguida e vítima de tentativa de agressão por vizinhos, Adriana ainda foi alvo da ação dos fiscais da Prefeitura de Niterói, Rio de Janeiro, depois de recorrer ao poder público para ter o seu direito de professar sua fé garantida pelas autoridades, como estabelece a Constituição Federal de 1988. O episódio apenas ilustra as inúmeras manifestações de intolerância contra umbandistas e candomblecistas e a vergonhosa omissão das autoridades brasileiras.
O repúdio à inversão de valores não foi expressão singular dos umbandistas e candomblecistas. Mereceu do jornalista Átila Nunes Neto uma carta ao prefeito de Niterói, Jorge Roberto Silveira, cuja íntegra publicamos abaixo.


Senhor Prefeito de Niterói
Jorge Roberto Silveira
prefeitura@niteroi.rj.gov.br
Ainda menino, eu ouvia falar não apenas do senhor, como também de seu pai, o governador Roberto Silveira, líder democrata e trabalhista do antigo Estado do Rio de Janeiro.
Meu pai, Átila Nunes Filho, foi seu companheiro na Assembléia Legislativa, quando o senhor ainda era deputado. E dele sempre obtive as melhores referências do senhor como político e herdeiro do nome Roberto Silveira
A imprensa carioca dá ampla divulgação hoje às perseguições que uma ialorixá umbandista, Adriana de Holanda, moradora em Niterói, vem sofrendo de vizinhos intolerantes, ligados às seitas de fanáticos neopentecostais, que abominam os cultos afro-brasileiros.
A exemplo dos meus avós, Attila Nunes e Bambina, e de meu pai, o deputado Átila Nunes Filho, aprendi a respeitar as diferenças. Mas continuo considerando absurdas as demonstrações de preconceito. Qualquer tipo de preconceito.
Nasci como o senhor, num lar de políticos. E a primeira lição que se aprende na Política é que não temos o direito de usar a máquina pública para coagir quem quer que seja. Isso é totalitarismo. É antidemocrático. É típico dos que querem impor seu ponto de vista com o auxílio da administração pública. E acima de tudo é flagrantemente ilegal.
Infelizmente, a Prefeitura de Niterói comandada pelo senhor, agiu dessa forma. Agiu covardemente contra uma umbandista que realizava seu culto no aconchego de seu lar e que já vinha sendo martirizada por vizinhos intolerantes.
Ameaçada com barra de ferro e constrangida com ameaças no seu direito à prática de sua fé, Dona Adriana ainda recebeu por cima a visita de fiscais da Prefeitura de Niterói, querendo saber se o seu centro estava registrado.
Por acaso, Dona Adriana não tem centro. Ela só reza dentro de sua casa, dentro dos preceitos umbandistas. É uma irmã de crença, graduada, que ainda não teve a oportunidade de abrir seu centro. É só uma praticante. Mais nada.
Mas, desde quando, Prefeito Jorge Roberto Silveira, cabe às prefeituras a fiscalização de funcionamento de templos religiosos? Com que autoridade o senhor permite que fiscais da Prefeitura de Niterói tentem intimidar uma umbandista porque acende algumas velas e um defumador?
A Prefeitura age assim com igrejas católicas que abusam do uso de sinos às seis da manhã? Por acaso envia fiscais às casas de pastores que abusam de aparelhos de som? Por acaso fiscaliza muçulmanos que entoam preces?
Senhor Prefeito, Jorge Roberto. Carrego o nome Átila Nunes como o senhor carrega o nome Roberto Silveira. Meu avô e seu pai foram contemporâneos, ambos de Niterói. Meu pai é seu contemporâneo, ambos são da mesma geração. Os senhores foram deputados juntos. E sempre se notabilizaram por serem democratas.
Não é possível que o senhor se omita inexplicavelmente diante de tamanha violência que foi a utilização de fiscais da Prefeitura de Niterói para intimidar não a dirigente de um centro de Umbanda. Foi pior, Prefeito: tentaram intimidar uma simples praticante dentro de seu lar
Ao em vez de agir em defesa da liberdade de culto, sua Prefeitura aliou-se aos intolerantes, aos preconceituosos, aos fanáticos, tentando calar a fé de uma irmã de crença que não cometeu um só crime.
Esse episódio, Prefeito, mostra que se numa cidade como Niterói, ex-capital do Estado Rio de Janeiro, uma das cidades mais importantes do Brasil, existem agentes públicos que, sob o silêncio de seu Prefeito, agem de forma absolutamente ilegal, imagino o que deve acontecer em cidades menores, do interior, aonde a imprensa não chega para reportar barbaridades como essa.
Além de uma ação enérgica na mídia nacional e junto ao Ministério Público, considero vital que se chame atenção para a ilegalidade flagrante da intimidação dos agentes da Prefeitura de Niterói contra a liberdade religiosa.
Manter no cargo o responsável por essa barbaridade é atestar a ilegalidade e o arbítrio perpetrado por agentes do governo.
Não é possível que continue sendo exibida essa face de fanatismo na Prefeitura de Niterói.
Torço, honestamente, pela admiração que sempre tivemos em nossa família pelo senhor, que a Prefeitura de Niterói tenha sido omissa, e não cúmplice dessa aberração.
ÁTILA NUNES NETO
atilanunesneto@emdefesadaumbanda.com.br

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