É preciso dar um basta à intolerância religiosa

Terreiro destruído em Nova Iguaçu (RJ), cidade que mais registras casos de agressões por conta da intolerância religiosa no estado  - Foto divulgação, jornal O Dia

Hoje, 21 de janeiro, é o Dia das Religiões e Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Essas datas são resultado da incoerência humana. Em tese, todas as religiões cristãs, afro-brasileiras e de quaisquer outras origens deveriam educar seus adeptos à construção de uma cultura de paz. Mas há uma profunda dissociação entre fé e paz. A história da humanidade mostra que grandes conflitos mundiais foram motivados pelo radicalismo e pelo sectarismo, levando a embates sangrentos em nome de Deus.
No Brasil, os neopentecostais tentam impor seu projeto político teocrático, eliminando os adeptos das religiões de matrizes africanas, como a Umbanda e Candomblé, em total afronta à Constituições e outros marcos legais infraconstitucionais, que asseguram a liberdade de crença e culto, e exigem do Estado a segurança para essas práticas diferenciadas de diálogo com o sagrado. 
Umbandistas e candomblecistas têm sido perseguidos, alvos de violência e vandalismo de evangélicos de diferentes vertentes. O Rio de Janeiro tem um cenário tenebroso, onde traficantes e homicidas convertidos, fortemente armados com fuzis, invadem os terreiros, coagem os adeptos e dirigentes religiosos, obrigando-os a destruir os espaços de culto aos orixás. Às forças de segurança são negligentes, quando não lenientes, com as atrocidades. O Judiciário faz ouvidos moucos à intolerância religiosa em curso em todo o país. Não condena os agressores eventualmente detidos pela polícia. 
Na prática, trata-se de um cruzada contra umbandistas e candomblecistas,  estimulada pela impunidade e pelo discurso de ódio que hoje desvaloriza às religiões não cristãs, e pela indiferença à violência contra o povo negro e sua fé. 
Reagir a tanta afronta exige dos adeptos e simpatizantes das religiões de matrizes africanas estudar e se aprofundar nos seus direitos, mas, sobretudo, conhecer em profundidade a religião que praticam. Exige ainda denunciar cada agressão às autoridades policiais e, se necessário, recorrer ao Judiciário para que o mandamento constitucional seja respeitado e o direito dos umbandistas e candomblecistas sejam respeitado, assim como são os templos cristãos. 
Embora o tema tenha pouco espaço nos veículos de comunicação comerciais, é preciso provocar a mídia sobre o que ocorre no país. Na segunda-feira, conseguimos tocar no assunto em artigo publicado no jornal Correio Braziliense, o de maior circulação na capital da República. Mas isso é menos do que um grão de areia no oceano. É preciso fazer mais, falar mais, denunciar mais e exigir mais do que tolerância, e, sim, respeito.
O Dia Mundial da Religião, por sua vez, foi instituído em dezembro de 1949, durante a Assembleia Religiosa Nacional dos Baha’is, na Pérsia. Desde então, o trabalho de conscientização permanece. 
Ao longo de sua trajetória, os Caminheiros de Santo Antônio foram alvo, por diversas vezes, da intolerância religiosa, decorrente do preconceito e do racismo. Altivo, o centro soube se fazer respeitar.  A pouco mais de um ano para completar 50 anos (Jubileu de Ouro), o Centro Espírita Caminheiros de Santo Antônio de Pádua é uma referência entre umbandistas e reconhecido como uma casa cujos ritos são os mais próximos da prática da Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade, onde o Caboclo das Sete Encruzilhadas, mentor do médium Zélio Fernandino de Moraes, anunciou o surgimento da Umbanda no Brasil, em 16 de novembro de 1908.

Fé, ódio e incoerência
Rosane Garcia*
Aprendi, com o passar dos anos, que a maioria dos segmentos que têm uma data que os colocam em evidência para a sociedade é discriminada. Não temos um dia no ano específico para comemorar o Homem Branco. Em compensação, temos o dia da mulher, da criança, do idoso, das pessoas com deficiência e até data para alertar às pessoas sobre como lidar com a natureza, indispensável à vida: dia da água, do meio ambiente e por aí vai. O Dia Nacional da Consciência Negra, 20 de novembro, homenageia  Zumbi do Palmares, ícone da resistência dos negros à escravidão, decapitado nesse dia em 1965 decapitado em 1695 pelas tropas coloniais
O racismo foi uma construção dos colonizadores eurocentristas, para  justificar a depreciação e a inferiorização dos negros e de outras etnias, usados como força motriz para seus interesses econômicos.. No Brasil, a deformidade persiste há mais 500 anos. Por iniciativa dos quilombolas gaúchos, novembro se tornou o mês da Consciência Negra no Brasil. A cada ano, os eventos de novembro têm levado a sociedade a aprofundar o debate sobre segregação racial não só dos negros, mas também dos indígenas, ciganos e outros segmentos população invisíveis ou alijados das políticas públicas.
Hoje, 21 de janeiro, é o Dia Mundial da Religião. No Brasil, é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Coincidência? Talvez. Mas foi nesse dia, em 1999, que a ialorixá Gildásia dos Santos e Santo, 65 anos, conhecida como Mãe Gilda,  do terreiro Ilê Axé Abassá de Ogum, em Salvador, teve um infarto fulminante, após ver sua foto na capa de um jornal neopentecostal, ilustrando a manchete: Macumbeiros charlatões lesam a bolsa e a vida dos clientes.  A Justiça acolheu a denúncia da família da ialorixá, e condenou a igreja a indenizar os descendentes de Mãe Gilda.
 Em 2007, a data foi oficializada pela Lei nº 11.635, de 27 de dezembro. Mãe Gilda, inspiradora do marco legal, se tornou um símbolo da luta contra a intolerância religiosa no país. No Rio de Janeiro, os traficantes e marginais convertidos pelos fundamentalistas têm agredido e destruídos os espaços destinados à Umbanda e ao Candomblé.
Os negros, embora tenham contribuído — e seguem contribuindo — com o desenvolvimento socioeconômico do país, ainda são perseguidos nas diferentes formas de diálogo com o sagrado, como ensinadas pela ancestralidade africana. Fora dos padrões cristãos são satanizados e aviltados na sua fé e cidadania. Intolerância que retrata incoerência e a pouca crença dos que se dizem pregadores do ensinamento de Deus (Olodumaré ou Zambi, para os afrorreligiosos), fonte de amor e bondade. 
O Estado é leniente e despreza ordenamento constitucional, que garante ser “inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”.
* Artigo publicado no jornal Correio Braziliense, edição de 20 de janeiro de 2020


Comentários

Unknown disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
FERNANDO disse…
Lamentável. Acredito que a origem da marginalização se inicia entre os próprios adeptos de nossa religião e de outras de matriz africana. Não atribuo a violência unicamente à doutrinação neopentecostal, essa, pode talvez, ser um gatilho. Mas de fato o que falta é uma maior articulação entre os terreiros estaduais e nacionais, percebo uma atuação demasiadamente incipiente e, senão for demais, invisível da Federação Nacional.
Nós estamos órfãos, sem representatividade no senado e na câmara, paralelamente, os evangélicos se articulam em suas bancadas e se fortalecem cada dia mais, ao ponto que hoje possuem até o presidente os representando diretamente no poder.
Fico triste, me sinto impotente, lamento por mim e por nossos colegas que tiveram sua fé vilipendiada e me solidarizo com tamanha afronta que estamos passando diuturnamente.
Paralelamente, sob este cenário em que a sociedade está tão dividida, tão polarizada, me sinto temeroso até mesmo em propor qualquer debate, sob risco de retalhações ainda maiores.
Oremos por dias melhores.

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