Para refletir: Universalidade


Por Pai Cambinda

Com ar de derrota e cansaço, Humberto chega para o médico e diz: “Doutor, estou pra enlouquecer, não durmo e não como direito, não tenho paz! Quero um remédio que me levante as forças. Não aguento mais o ranzinza do meu chefe, mas sou obrigado a trabalhar pra pagar as contas da família que só me enche de preocupações!”.

O médico olha para o enfermo, passa a lhe examinar os sinais vitais, e responde com carinho: “Calma, vamos ver como anda a sua saúde geral”.

“Calma, o quê!”– retruca o paciente. “Quero um remédio pra aguentar essa vida! Não foi pra isso que o senhor estudou? Pra curar as pessoas?”.

O médico não responde. Mas verifica alterações no ritmo cardíaco e na pressão arterial do homem, a cada mudança de humor. Pede exames. No retorno marcado, os exames nada revelam. O paciente insiste em reclamar da vida, da família, do chefe, da chuva, do sol, de tudo... Marcelo, o médico, procura conversar e sugere encaminhá-lo a um psicólogo, mas Humberto fica muito irritado e recusa a ideia dizendo que não crê nessas bobagens.

Marcelo reflete um pouco. Relembra o tempo em que ele próprio andava sombrio, amargo e revoltado com a vida. Ainda estudante de Medicina, era custeado pela mãe, que se desdobrava entre lavar e passar roupas e vender doces, sem nunca reclamar. Um dia, já perto da formatura, ele não pode ir a uma festa da faculdade: não tinha roupa adequada. Entrou em casa revoltado: “A culpa é do meu pai, que nos abandonou sem pensar nas dificuldades que teríamos de enfrentar! Nossa vida poderia ser bem melhor!”. Paciente, a mãe lhe faz um carinho: “Não culpe seu pai. Ele não aceitou a doença e se entregou ao alcoolismo, sofrendo as consequências disso. Mas se arrependeu e sempre vem aqui, como já lhe falei, tentando conversar com você, filho”.

Ainda mais indignado, Marcelo explodiu: “Doença? Qual doença? O que sei é que ele nos deixou quando eu tinha cinco anos! Que importa? Jamais quero vê-lo!”.

Então a mãe lhe contou a verdade: Pedro, o pai de Marcelo, saíra de casa depois de ser diagnosticado com um tipo raro de câncer. Na época, não havia tratamento para a doença. Atormentado, ele fugiu da família e passou a beber diariamente, até ser hospitalizado. Quase sem esperanças de sobrevivência, insistia em não receber a mulher. Pela sua pouca idade, a mãe ocultou de Marcelo esses detalhes; por isso ele apenas se lembrava de não ter notícias do pai desde a tenra infância. Somente há uns dois anos é que soube, pela mãe, que o pai insistia em vê-lo. Porém, imaginando-se abandonado, Marcelo se recusava. Agora, conhecendo melhor os fatos, queria saber os motivos da volta do pai. Mais uma vez, Marta, sua mãe esclareceu tudo.

Havia um grupo de religiosos que ia ao hospital fazer orações pelos doentes, e que um dia foi ter ao quarto de Pedro. Num primeiro momento, ele não aceitou ajuda, gritou que saíssem dali. Um dos visitantes tomou-lhe as mãos, pedindo-lhe calma. Então começou a fazer uma prece e, de repente, sua voz começou a soar como a de um velho que se identificou como Pai Joaquim.

“Que farsa era aquela?”- bradou o enfermo. Porém, “o velho” continuou conversando até acalmá-lo. Disse, por fim, que renascemos na Terra para aprender e evoluir. Instruiu Pedro a agradecer pela vida, a meditar e a confiar no poder interior de cura.

Para resumo da história, o pai de Marcelo aceitou seguir as instruções “do velho”, e foi melhorando. Meses depois, curou-se e obteve alta; então quis conhecer o templo daquele grupo religioso. Ali Pedro descobriu que tinha a mediunidade bastante aflorada e que precisava aprender o autocontrole, buscar o equilíbrio das emoções.

Pedro estudou o assunto e veio a tornar-se um médium ativo da Casa. Nessa condição, já bastante calmo, voltou a procurar a família, e foi quando Marcelo não quis saber dele. Por sua vez, diante das mudanças positivas do marido, Marta resolveu adotar a mesma religião. Gostava muito das palestras de Pai Joaquim. Finalizando, ela convidou o filho a conhecê-lo.

Marcelo pensou e pensou. E concordou. Com o tempo, também foi se modificando. Passou a demonstrar gratidão pelos cuidados maternos e fez as pazes com o pai, porque também se apaziguara internamente. E viu sua vida transformar-se completamente. Formou-se e abraçou a Medicina com amor e respeito. Era um excelente médico.

Naquele dia, ao atender Humberto, “o doente reclamão”, Marcelo compreendeu que não poderia julgá-lo: tivera uma experiência semelhante... Por isso teve paciência. Acabou por contar-lhe a própria história de vida, na esperança de ajudá-lo. Humberto ouviu tudo em silêncio, então disse: “O doutor me desculpe, mas não acredito nessa coisa de espíritos, entende?”. Marcelo pediu-lhe desculpas: não estava tentando “convertê-lo”. Apenas quis ressaltar os benefícios da calma, da busca de espiritualização, partindo de uma experiência pessoal.

Fonte: Instituto Cultural Sete Porteiras do Brasil

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