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Berço da Umbanda: poeira à vista

No último domingo, momentos antes de sair de casa para ir para os Caminheiros, deparei-me como uma notícia que avaliei importantíssima. A casa em que o médium Zélio Fernandino de Moraes incorporou o Caboclo Encruzilhadas e estabeleceu as linhas mestras da Umbanda, em 1908, será demolida esta semana. Em seu lugar, será construída uma loja e um depósito, em São Gonçalo, Niterói, estado do Rio de Janeiro.

Diante de tamanha perda de referência histórica e religiosa, apressei-me em disparar correspondências. De imediato, tive a ideia de escrever para o irmão Átila Nunes, deputado estadual  do Rio de Janeiro. Fui para o Centro, com aquilo martelando a minha cabeça. Para mim, o gesto significava uma total falta de sensibilidade frente à importância desse marco histórico e religioso para mais 400 mil umbandistas, somente no Brasil, sem contar com outros tantos espalhados por diversos países.

Quando voltei do Centro, ainda chocada com a notícia divulgada pelo jornal Extra on-line, mudei um pouco o texto enviado ao deputado Átila Nunes e o mandei para a deputada federal Érika Kokay, que tem um forte envolvimento com a religiosidade afro-brasileira. Enviei o mesmo texto, devidamente adaptado, para a ministra Luiza Bairros, da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial e, por fim, para a Rede Afrobrasileira Sociocultural, que congrega um enorme número de integrantes da religiosidade de matriz africana e estabelece um belíssimo diálogo com outras religiões, dentro de uma filosofia de paz e respeito.

A demolição da casa berço da Umbanda mexeu com um grande número de integrantes da Rede Afrobrasileira. Todos lamentaram o episódio e grande parte apresentou sugestões para que medidas fossem adotadas a fim de evitar que o ponto de origem da religião virasse pó.

Em meio os integrantes do caloroso debate, o neto do médium Zélio Fernandino de Moraes faz um apelo para que nada fosse feito, sob o argumento de que seu avô não valorizava os bens materiais. Argumentou ainda que a prática da caridade pode ser feita sob a copa de uma árvore. Daí, não ter importância a demolição da casa, onde seu avô fez nascer a Umbanda.

Embora respeite as ponderações de Wigder Monteiro Filho, não concordo plenamente. Entendo, insisti, por meio de um diálogo franco e respeito, que não se tratava de venerar um espaço material, mas, sim, de preservar um ponto de referência da nossa religiosidade, um ícone, assim como vários outros que temos na Umbanda.

Wigder retrucou minhas ponderações, como se valorizássemos mais as questões materiais do que as espirituais. Percebi que ele havia fechado questão em relação a nossa ingênua tentativa de salvar, mesmo sem qualquer poder, o berço da Umbanda. Voltei a escrever para o Wigder para esclarecer o entendimento equivocado que havia feito sobre a nossa preocupação.

Apesar do desencontro de ideias e da tentativa frustrada de salvar o espaço material do nascedouro da nossa religião, a experiência foi muito boa e mostrou com muita clareza o quanto a comunicação em rede — experiência já descrita por muitos — e fantástica como instrumento de mobilização das pessoas que, mesmo divergindo, estabelecem um diálogo positivo em torno de um tema. Basta pensar um pouquinho e colocar suas ideias no espaço virtual. De uma forma ou de outra, acredito sinceramente que fizemos a nossa parte.
Se não deu certo, que Oxalá e os orixás nos inspirem da próxima vez.

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