Berço da Umbanda vira pó


 Herculano Barreto Filho
Extra on-line


Não houve tempo para o tombamento histórico da casa centenária onde a umbanda foi criada. A fachada do imóvel começou a ser destruída nesta segunda-feira à tarde. A previsão é que a residência vá abaixo até sexta-feira, de acordo com a previsão do mestre de obras Gilson Derbui, de 54 anos, que trabalha no terreno há quatro meses.
— Essa casa está em ruínas. A madeira está cheia de cupim e poderia ocorrer um desabamento a qualquer momento — explicou.
No local que foi o berço mundial da umbanda, será construída uma loja de alumínio. A prefeita Aparecida Panisset, que poderia desapropriar o imóvel para fins culturais, participou da inauguração da UPA, ao lado do governador Sérgio Cabral. Questionada, não se manifestou sobre o assunto.
Um silêncio, idêntico àquele que é fundamental para o início dos trabalhos espirituais em um terreiro de Umbanda. Foi assim que as autoridades do país se comportaram frente à ameaça de demolição do que poderíamos chamar de gênese da religião de mais de 400 mil brasileiros.

Comentário do blog

Não faltaram apelos, informes, comunicados às autoridades brasileiras, principalmente àquelas responsáveis pela defesa do patrimônio histórico, cultural e religioso cuja pluralidade define os traços da brasilidade.
A solução mais adequada e rápida seria um decreto de desapropriação do imóvel para fins culturais que estava nas mãos de uma prefeita evangélica. A indiferença frente ao episódio era mais do que esperado. Secularmente umbandistas e candomblecistas têm sido alvos de implacável descaso e, mais recentemente, da intolerância dos evangélicos neopentecostais.
O Ministério Público, tão ágil em situações assemelhadas, apontou o Executivo municipal como atalho para impedir que os escombros de um ícone, de uma referência para parcela expressiva da sociedade não se tornasse pó. Agarrou no mais frágil dos argumentos: não havia tempo para que medidas judiciais cautelares salvassem o espaço em que o Cabloco Sete Encruzilhadas, incorporado no médium Zélio Fernandino de Moraes, estabeleceu o marco da religiosidade que amalgamou o místico dos negros, índios e de outras manifestações de fé, e, assim, deu origem à Umbanda.Por que não havia tempo? Porque também não havia interesse.
Mas a responsabilidade não pode ser concentrada apenas nas autoridades que nos olham com desdém. Ela também é nossa, umbandistas. Não buscamos a nossa história, não preservamos nossos valores materiais que, imponentes ou não, retratam a nossa existência. Somos desorganizados — e não fazemos efetivamente nada — para mudar esse comportamento prejudicial aos interesses coletivos e fundamentais para a conquista do respeito que tanto cobramos quando ofendidos na individualidade.
Somos apáticos  — e por que não dizer — e nos desrespeitamos. Diante do censo ou de alguma autoridade nos dizemos seguidores de religiões de matriz europeia e não africana, como aUmbanda ou o Candomblé. Temos medo, porque não estudamos e, assim, falta-nos argumentos para contestar os ataques ou ofensas. Abaixamos nossa cabeça, como se a Umbanda ou o Candomblé não merecesse a nossa altivez, que se manifesta, muitas vezes, em tons ríspidos e agressivos quando a ofensa é pessoal. Quando o gesto de violência é voltado a nossa fé, nos encolhemos. Será que temos verdadeiramente fé na espiritualidade?
Rebatemos, dentro das nossas limitações, os argumentos de que os umbandistas não necessitam de bens materiais para cumprir a sua principal e mais importante missão: a caridade, sem olhar a quem, mas dando de graça o que de graça recebeu do Criador, que é a mediunidade.
Também acreditamos que não precisamos de bem material para estender as mãos a quem necessita. A caridade não está apenas dentro do terreiro. Ela se expressa até mesmo na compreensão da atitude daqueles que nos desdenham. Faltou a eles, com a nós, o compromisso com uma visão mais holística e cultural da religiosidade do nosso povo.
Discordamos frontalmente de que os símbolos e ícones são dispensáveis. Eles estão na maioria das manifestações religiosas, sejam elas de matriz africana ou europeia. O berço da Umbanda, no município de São Gonçalo, era um ícone, um símbolo que perdemos. Para ilustrar basta citar as monumentais igrejas católicas; as imagens dos santos; o terço, o santo cálice; a Bíblia, de autoria controversa, erguida pelos pastores — nem sempre para pregar a paz, mas a intolerância eivada de preconceito —, o Buda, as guias (fios de contas) indicativas do status do zelador de terreiro e tantos outros símbolos, que estão carregados de uma mística e, por si só, anunciam a fé individual.
No campo pessoal, quem não guarda objetos que simplesmente tocados propiciam uma viagem ao passado e tomam a mente de boas lembranças?
Os umbandistas perderam o berço da sua religião. O Centro Espírita Nossa Senhora da Piedade, na Rua Floriano Peixoto, 30, São Gonçalo, Niterói, Rio de Janeiro, virou pó. Faltou a todos, inclusive aos umbandistas, piedade com uma relíquia histórica.
Mas louvado seja Oxalá e toda a Espiritualidade pela lição que nos deram com esse episódio. Quem sabe não seremos, a partir do pó que nos restou, capazes de construir uma consciência maior frente às nossas relíquias para que a nossa história também não seja levada à ruína?

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